Preconceito Linguístico
Enviada em 13/10/2018
A linguagem é o sistema através do qual o homem comunica suas intenções e sentimentos, pela fala ou escrita, sendo, por isso, uma dádiva da espécie humana, sem a qual o mundo atual seria inimaginável. No Brasil, é visível a complexidade e as variâncias da língua portuguesa, seja pelo “uai” do mineiro, o “tchê” do gaúcho ou o “oxente” do cearense. Tal processo deriva da ocupação diversificada e acompanhada pela intensa miscigenação do território brasileiro, com contribuição de africanos e indígenas, bem como dos imigrantes europeus vindos para o país no século XX. Contudo, essas diferenças na fala não são apreciadas cotidianamente e destaca-se, assim, o preconceito linguístico, fenômeno crescente na atualidade e amplamente discutível.
Em primeira instância é válido salientar que a maneira como o idioma português é ensinado em âmbito escolar, durante toda a formação do aluno, colabora para uma visão limitada acerca das variantes linguísticas. Parafraseando o determinismo de Lamarck, em que as espécies são fruto das pressões do meio, nota-se que o meio educacional, ao limitar o ensino da língua apenas à norma culta, contribui para o aumento do preconceito linguístico. Desta forma, associa-se a norma padrão às classes altas e bem formadas, enquanto outras maneiras de se expressar são mal vistas e menosprezadas.
Outrossim, destaca-se a acentuada aversão ao diferente na vida de parcela significativa da população brasileira. Por exemplo, o famoso personagem infantil Chico Bento, criado pelo cartunista Maurício de Souza, tem como característica seu jeito “caipira” de falar, com uso recorrente de gírias específicas, e, devido a isso, é visto por muitos como inferior e de baixa inteligência. Tal situação é influenciada pela mídia, que muitas vezes associa, em novelas e programas, variantes linguísticas a situações sociais e maneiras ser. Desse modo, o etnocentrismo, ou seja, a crença na superioridade de um indivíduo sobre outro, se manifesta também no contexto da fala.
Segundo o filósofo Nicolau Maquiavel os preconceitos têm mais raízes do que princípios. Depreende-se, portanto, que medidas são necessárias para alterar essa situação e garantir a igualdade da população, direito assegurado no Artigo 5° da Constituição Federal. Assim, cabe ao Ministério da Educação criar o programa “Uma língua, Várias falas”, através do qual, em escolas e universidades, o ensino da pluralidade da língua portuguesa seria concretizado, seja pela discussão de gírias e jargões específicos de determinados lugares em sala ou por palestras mensais sobre a diversidade do idioma português, devido à idade, região ou meio social, bem como a importância de reconhecer e respeitar tal diversidade. Ademais, o Governo Federal, através do poder legislativo, deve intensificar e criar novas leis que punam, por multas, qualquer tipo de preconceito linguístico, a fim de diminuir tal ocorrência.