Preconceito Linguístico

Enviada em 12/10/2018

No limiar do século XX, o literato modernista Monteiro Lobato criou o personagem “Jeca Tatu”: sertanejo cujo modo de vida e de linguagem foram estereotipados como forma de sátira à população interiorana. Nesse contexto, embora a língua seja um instrumento de comunicação e interação na sociedade, ela também é constantemente utilizada como mecanismo de segregação social, tendo em vista a falsa ideia da existência de uma variante correta. Logo, nota-se que a perpetuação de preconceitos contra os dialetos se potencializa principalmente por conta da imposição da norma culta, cujo efeito se projeta na reprodução dos estereótipos sociais.

Numa primeira análise, percebe-se que as instituições escolares colocam a gramática normativa como padrão obrigatório de fala e escrita. Nesse sentido, a criança e o jovem que na escola se expressa através de determinadas variações linguísticas sociais e regionais, são taxados e ridicularizados não apenas pelos colegas como também pelos próprios professores. Por esse viés, consoante ao professor e sociolinguísta Marcos Bagno, a escola passa a ser o principal perpetuador do preconceito linguístico, uma vez que hierarquiza as diversas formas de dialetos existentes no país. Dessa forma, não se pode estigmatizar uma variante de língua e nem taxá-la como certa ou errada, haja vista que a diversidade linguística é reflexo da pluralidade étnica e cultural do povo brasileiro.

Consequentemente, a desvalorização das variantes linguísticas promove a perpetuação dos estereótipos sociais. Nessa ótica, os veículos midiáticos utilizam de um certo “determinismo geográfico” para expor os diversos falantes regionais como objeto de humor e ridicularização. Analogamente à obra de Lobato, o personagem “Pedro Malasartes” do ator e cineasta Amácio Mazzaropi é um dos exemplos da estereotipação de grupos sociais: o sertanejo e caipira interiorano é retratado de maneira lúdica por conta de suas variações linguísticas e seu modo de vida. Desse modo, a maneira jocosa como a mídia retrata a linguagem dos indivíduos dos diversos estados do país é mais uma maneira de discriminação e hierarquização da sociedade em quem fala “certo” e quem fala “errado”.

O preconceito linguístico, portanto, é uma atitude discriminatória que precisa ser mitigada com o apoio dos principais agentes da sociedade. Primeiramente, a escola como formadora de cidadãos pensantes, deve investir no processo educacional de letramento, o qual consiste em ensinar a norma padrão da língua sem incentivar os estigmas e preconceitos contra os dialetos. Essa medida se concretizará através de aulas e debates com a exposição de textos literários nacionais e poemas, objetivando mostrar aos estudantes o grande mosaico da língua e como ela é culturalmente construída. Assim, pode-se garantir a convivência entre todos os cidadãos do Brasil.