Preconceito Linguístico

Enviada em 13/10/2018

A literatura brasileira do século XX foi marcada pela disputa de duas correntes: o Parnasianismo de Olavo Bilac, que defendia um uso purista e filigrano da gramática como comunicação, e o Modernismo de Oswald de Andrade que, por essência, abraçava os usos informais da língua. De modo semelhante, tal debate ainda persiste, porém, na perversa forma do preconceito linguístico, uma vez que invalida as variações da língua, seja por uma visão distorcida da teoria gramatical, seja pela indolência a outrem.

A gramática tradicional representa apenas uma parte da comunicação pela linguagem. Sendo a língua falada um organismo vivo, a gramática se torna apenas uma maneira de regularizar a comunicação, o que a torna útil principalmente em ambientes formais. Porém, o advento de tal conjunto de normas é hoje usado para desclassificar a variação natural que uma língua sofre no cotidiano, principalmente pelo tempo, pela situação sócio-educacional e o lugar em que se habita, como no caso do preconceito que nordestinos e periféricos sofrem pelo uso de gírias e sintaxe próprias, constatando-se a exclusão do preconceito linguístico.

Outrossim, a divisão pelo uso da língua não encontra seu fim em si mesma. O descrédito da variação linguística serve de exemplo para a teoria de Georg Simmel, na qual o que é estranho à sociedade em outra pessoa, a desumaniza e a tipifica num grupo que acaba marginalizado. Foi o caso do médico que, em 2016, postou nas redes sociais uma foto na qual motejava a fala de um paciente seu, exemplificando a exclusão pelas diferenças no uso da língua, não considerando a outra pessoa como uma igual a si mesmo, mas como um estranho.

Assim, o preconceito linguístico acaba por afetar a sociedade como um todo. Dessa forma, fica claro que a exclusão comunicativa é um problema social e, portanto, deve ser combatido. Para isso, a mídia deve realizar o seu papel social, pondo em prática a ficção engajada, o que pode ser feito pela caracterização positiva dos diferentes usos da língua em novelas, filmes e programas de auditório. Ademais, o Ministério da Educação pode incluir no currículo já das séries iniciais o assunto da pluralidade do português, tudo isso com o fito da mudança de comportamento da sociedade. Assim, o respeito à plenitude da língua poderá ser realizado.