Preconceito Linguístico
Enviada em 22/10/2018
O Modernismo teve como um de seus maiores expoentes Mário de Andrade, cujas obras regionalistas são caracterizadas por uma intensa valorização da diversidade cultural do Brasil, sobretudo na linguagem. Entretanto, divergindo da mentalidade do autor, a sociedade hodierna mantém noções de superioridade entre os diversos dialetos existentes no país, fomentando, assim, o preconceito linguístico, cujo baluarte é o próprio preconceito socioeconômico, impulsionado pela esteriotipação midiática.
A priori, é válido ressaltar que o preconceito linguístico é, antes de tudo, um preconceito de classe social, haja vista que os indivíduos detentores dos maiores capitais são, também, os que dominam a linguagem pretensiosamente considerada superior. Isso, conforme as ideias de Pierre Bordieu, caracteriza-se como uma forma de poder simbólico, em que as classes dominantes utilizam-se dos dialetos para exercer uma forma sutil de controle. Dessa forma, o próprio ensino estrito da gramática normativa nas escolas é uma forma de validar a ordem estabelecida, pois estigmatiza aqueles que não a dominam como intelectualmente inferiores, o que pode, infelizmente, incentivar a prática de bullying no próprio ambiente escolar.
Outrossim, essa chaga social também é intensificada pelos meios de comunicação de massa, que fortalecem esteriótipos por meio de telenovelas, atrelando, por exemplo, o dialeto caipira a personagens ignorantes, de modo pejorativo. Tendo em vista que a mídia é uma forte modeladora de opinião e conduta, a população passa a assumir noções deturpadas de superioridade linguística, o que legitima atos preconceituosos, dando a tais ações denotações cômicas. Tal realidade é ratificada ao se destacar o caso do médico que, através de suas redes sociais, ridicularizou determinado paciente pela forma como esse pronunciou as palavras “raio-x” e “pneumonia”.
De acordo com Aristóteles, o homem é um ser social. Nessa lógica, qualquer forma de violação a seu processo de socialização - principalmente em relação a linguagem - deve ser fortemente tolhida. Sendo a escola a máquina socializadora do Estado, é necessário que o Ministério da Educação promova uma reformulação do conteúdo de português ministrado em sala de aula, estabelecendo um enfoque maior nas diversas variações linguísticas, mediante a utilização de obras literárias pertinentes, incentivando, dessa forma, princípios de igualdade, com o fito de formar cidadãos mais transigentes e conscientes. Ademais, a sociedade civil organizada deve pressionar a mídia, por meio de manifestações virtuais, para que essa não dissemine estereótipos de linguagem, mesmo que de forma cômica. Dessa forma, o ideário coletivo brasileiro irá de encontro ao de Mário Andrade.