Preconceito Linguístico

Enviada em 10/10/2018

Ao refugiar-se no Brasil em meados do século XX, escritor austríaco Stefan Zweig, fascinado pelo potencial do país, escreveu um livro ufanista cujo título é até hoje repetido: “Brasil, país do futuro”. No entanto, quando se observa a deficiência de medidas na luta contra a ascensão do preconceito linguístico no Brasil, um país extremamente rico em variações linguísticas, verifica-se que essa profecia é constatada na teoria e não desejavelmente na prática. Nesse sentido, torna-se evidente a impunidade e a negligência das escolas, bem como a necessidade de medidas governamentais para solucionar essa inercial problemática.

Mormente, é indubitável que a questão constitucional e sua ineficiência estejam entre as causas do problema. Segundo o filósofo Aristóteles, a política deve ser utilizada de modo que, por meio da justiça, o equilíbrio seja alcançado no corpo social. De maneira análoga, é possível perceber que a impunidade quanto às opressões em relação às variantes linguísticas rompe essa harmonia, haja vista que não há um aparato de investigação eficiente contra essa sutil forma de violência. Dessa forma, a ineficácia de coercitiva de um fato social, como a justiça, segundo o sociólogo Émile Durkheim, facilita o estado de anomia, um risco à dignidade e à saúde mental de quem tem sua comunicação desrespeitada.                  Ademais, a educação ofertada em muitas instituições de ensino favorece esse tipo de preconceito. Isso ocorre porque nas escolas leciona-se como prioridade a norma culta, em detrimento da diversidade e da adaptação linguística — habilidade de aptar a linguagem conforme a necessidade do momento —, o que gera a ilusão de que é a única variante correta da língua. Assim, somando-se ainda o fato de  que a língua está totalmente ligada à estrutura e aos valores da sociedade, e o falante da norma padrão ser aquele que apresentam maior nível de escolaridade e poder aquisitivo, esse tipo de discriminação – pouco discutido no Brasil – acentua ainda mais a desigualdade social no país.

Urge, portanto, políticas públicas para que se remova essa pedra no meio do caminho, parafraseando Carlos Drummond de Andrade. Destarte, a Polícia Civil deve criar uma ouvidoria pública, online e presencial, para receber denúncias de discriminações linguísticas, investigando e punindo os infratores, a fim de que, por meio da justiça, haja harmonia na sociedade. Além disso, o Ministério da Educação deve incorporar nas escolas um estudo de gramática contextualizada, intermediadas por professores, além de veicular folhetos empregando as variações da língua, para que o aluno compreenda a diversidade do seu dialeto e utilize-o de acordo com a circunstância. Assim, talvez, a profecia de Zweig torne-se realidade.