Preconceito Linguístico
Enviada em 08/10/2018
O personagem Fabiano, criado pelo célebre escritor modernista Graciliano Ramos em seu livro “Vidas Secas”, é um homem do sertão nordestino que vive em um regime de exploração, sendo impossibilitado de mudar sua situação por se comunicar com fortes marcas de regionalismo e ser alvo de preconceito linguístico. De modo análogo, estendendo-se da literatura para a vida cotidiana, é indubitável observar que milhares de brasileiros sofrem com a exclusão social e a dificuldade comunicativa como principais consequências do estigma às diferentes falas no território pátrio.
Com efeito, a intolerância linguística fomenta a exclusão social no Brasil. Caipiras, roceiros, pobres, atrasados. Esses são alguns exemplos de esteriótipos habitualmente associados às variedades linguísticas de forma pejorativa e depreciativa no país. Numa visão filosófica, Michel Foucault defende a ideia de que a criação de esteriótipos servem para promover as relações de poder numa sociedade, de modo que aqueles que são alvos das críticas são inferiorizados em detrimento do pensamento de alguns. Nessa perspectiva, as pessoas que se comunicam de maneira diferente daquelas que frequentam os grandes centros são consideras inferiores, sem valor cultural e sem prestígio social.
Sendo assim, muitos cidadãos tupiniquins enfrentam uma lamentável dificuldade comunicativa democrática, ocasionada pela ausência de empatia social. Sob um viés sociológico, para Jurgen Habermas, a comunicação é o cerne da democracia e sem ela não há cidadania. Dessa forma, o bloqueio comunicativo fere a cidadania dos brasileiros que enfrentam tal revés. Nesse ínterim, sendo a língua representação cultural de uma nação, para um país tão plural quanto o Brasil, é necessário que seja disseminado o entendimento de que é natural que cada região exerça sua própria forma de comunicação. Decerto, isso ocorreria através da compreensão de que a língua é única, mas a verbalização da língua é múltipla, garantindo, por meio da educação, a democracia nacional.
Em virtude dos fatos mencionados, é imprescindível que o Governo Federal mediante o Ministério da Educação, faça das escolas, enquanto instituições formadoras de cidadania, lugares de disseminação da quebra do preconceito linguístico no Brasil. Nesse sentido, deve-se anexar o assunto de variantes linguísticas as e suas implicações sociais no conteúdo programático de disciplinas como língua portuguesa e sociologia no ensino fundamental e médio nos colégios do país. Assim, tal medida ocorreria por intermédio do repasse do Estado de cerca de 30% da contribuição do imposto de renda de pessoa física e jurídica para o setor da educação, incorporando esse projeto à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Enfim, tal ação tem a finalidade de incutir valores éticos na população brasileira, de maneira a assegurar inclusão social e democracia linguística em todas as regiões da federação.