Preconceito Linguístico
Enviada em 15/10/2018
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis diz não ter tido filhos por não querer deixar a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Nesse sentido, ao analisar o atual quadro de preconceito linguístico existente no Brasil, um país de tanta pluralidade, talvez o protagonista achasse acertada sua decisão. A partir dessa perspectiva, é fundamental entender como a diversidade influencia nesse aspecto e explicar o efeito da instituição da norma culta sobre tal contexto.
A princípio, é relevante compreender que a extensão territorial brasileira abre portas às diversas variantes linguísticas do país: o R retroflexo do interior paulista, o chiado carioca e o pronome “tu” no Paraná são exemplos dessas variedades. Entretanto, tal pluralidade também se manifesta em níveis de escolaridade e situação da fala, fatores que geralmente levam aos preconceitos. Desse modo, em 2016, um médico de São Paulo debochou online sobre um paciente, de renda e escolaridade baixas, que havia pronunciado errado um termo da medicina, causando tumulto na internet. Não raro, discriminados por sua singularidade de expressão, muitos brasileiros sofrem diariamente com casos preconceituosos, os quais exigem medidas urgentes de mudança.
Outro ponto está relacionado à ideia de forma “correta” de falar. Nas escolas, a norma culta é ensinada como a única possivelmente correta e, portanto, as crianças crescem já com tal postura adotada. Afinal, segundo o sociólogo Émile Durkheim, os indivíduos são diretamente influenciados pelo meio no qual estão inseridos, ou seja, em um ambiente cuja multiplicidade de maneiras linguísticas não é defendida, desde a infância a intolerância ao diferente é semeada. Por conseguinte, torna-se imprescindível quebrar o estigma da superioridade de uma forma linguística em detrimento da outra.
À luz desse cenário, é imperioso construir caminhos para promover o fim do preconceito linguístico no Brasil. Em primeiro lugar, cabe às escolas a promoção de aulas e atividades coletivas cujo foco seja o estudo sobre as variantes da língua no país e sobre as implicações e consequências da intolerância na vida alheia, com o fito de despertar o interesse a respeito do assunto e, assim, mitigar as práticas preconceituosas. Ademais, é papel da mídia, como essencial ferramenta de influência comportamental, instituir, por meio de novelas e propagandas, a propagação da problemática, a fim de disseminar o conhecimento desse impasse na sociedade brasileira. Dessa forma, o legado deixado às gerações futuras, ao contrário do que Brás Cubas temia, será a tolerância no lugar dos preconceitos vividos.