Preconceito Linguístico

Enviada em 31/10/2018

O Estado brasileiro é reflexo da junção de diversas culturas e de seus aspectos sociais. Sob essa perspectiva, o dialeto, parte de tais aspectos, configura-se como um objeto de afirmação nacional, uma vez que é inerente ao povo e manifesta-se por meio de suas variações. No entanto, o preconceito linguístico, cada vez mais presente, ainda é tratado com descaso. Isso se deve, sobretudo, ao enraizamento histórico de segregação por meio da norma culta, bem como ao estereótipo linguístico imposto pelos veículos comunicativos. Nesse sentido, são necessárias ações conjuntas das instituições de ensino e da mídia, visando à resolução desses problemas.

Em verdade, o idioma vernáculo é caracterizado por sua pluralidade, já que cada falante opta pela melhor forma de construir um canal comunicativo. Contudo, o equívoco entre o conceito de língua e de gramática normativa transcorreu o período colonial, ao categorizar em níveis discriminatórios o dialeto lusitano e o indígena, perpassou os movimentos literários, ao valorizar o preciosismo parnasiano em detrimento das variações regionais, e permanece até a contemporaneidade. Desse modo, a ideologia intolerante e retrógrada, que determina apenas um modo de expressar-se como o correto, gera a repressão e contraria os ideais expostos por Paulo Freire ao afirmar: “Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”, os quais deveriam ser educacionalmente valorizados.

Ressalta-se, ainda, que, por ser uma nação de tamanho continental, o Brasil apresenta diferentes variações diatópicas, as quais desencadeiam, por vezes, o preconceito ligado aos sotaques. Tal fato é acentuado pela mídia que, conforme o filósofo Karl Marx, é responsável por anestesiar a sociedade, associando as massas à alienação das classes dominantes. Semelhantemente, programas de entretenimento e, até mesmo, propagandas publicitárias utilizam-se das variantes linguísticas de forma pejorativa, relacionando o modo de falar de caipiras e nordestinos, por exemplo, à ignorância ou à falta de escolaridade, estereótipos incoerentes. Logo, faz-se mister que o idioma seja apresentado pela mídia como um fenômeno dinâmico e distante de concepções difamatórias.

Diante disso, é essencial que impasses sejam revertidos. Para tanto, as escolas, entidades formadoras de opinião, devem ampliar as aulas de Ética e Língua Portuguesa, por meio de palestras, ministradas por professores de linguística, que ressaltem as diferentes variantes de expressão existentes no País, a fim de romper paradigmas e de esclarecer equívocos relacionados ao preconceito. Ademais, os veículos midiáticos têm a responsabilidade de desenvolver campanhas publicitárias que sejam contrárias aos estereótipos criados a respeito da língua falada, inserindo personagens de variadas regiões, com o fito de se valorizar a pluralidade brasileira.