Preconceito Linguístico
Enviada em 23/10/2018
“Pão ou pães, é questão de opiniães.” O notável autor da literatura brasileira, Guimarães Rosa, com sua célebre frase, demonstra a naturalidade da existência de diferentes variantes da língua portuguesa no Brasil, se adaptando às regiões, classes, gêneros ou faixa etária. Entretanto, ainda com essas divergências, a cultura do preconceito linguístico se perpetua, atingindo diversos campos da sociedade. A desigualdade social e a falha educacional devem ser analisados para compreensão da problemática.
Em primeiro plano, é importante evidenciar o papel da desigualdade social quanto ao tema. A segregação sócio-espacial corroborada pela discrepância econômica entre a população brasileira promove uma criação de dialetos entre os diversos grupos, facilitando o estabelecimento da comunicação entre os indivíduos. Não obstante, a porção marginalizada, com menor acesso e oportunidade à educação de qualidade sofrem, em maior porcentagem, com o preconceito linguístico relacionado à essas variações, uma vez que quebram com a padronização da língua. Um exemplo dessa discriminação no recente caso, em julho de 2018, do médico que, ao receber um paciente não escolarizado, debochou de sua forma de pronunciar determinadas palavras, em sua rede social, demonstrando a persistência do preconceito linguístico sobre a classe mais carente.
Paralelamente, a falha educacional é um fator contribuinte da mazela social. No Brasil, durante o período de formação dos indivíduos, nas instituições de ensino, a aprendizagem da Língua Portuguesa é fundamental para que haja possibilidade de comunicação entre a população. No entanto, as aulas são voltadas para o uso da norma culta do português, excluindo a existência de inúmeras variantes e dialetos distribuídos por todo o país. Com isso, o preconceito linguístico quanto à essas divergências é instituído e afeta uma grande parte da sociedade brasileira, uma vez que não são passadas como normais para àqueles que frequentam essas aulas. Um exemplo desse preconceito que se perpetua na contemporaneidade pode ser observado nas inúmeras “piadas” xenofóbicas quanto aos sotaques e dialetos da região nordeste do Brasil, que fogem um pouco dessa imposição de padrões.
À luz do exposto, pode-se observar que o preconceito linguístico é uma mazela que aumenta gradativamente no país. Para solucionar a problemática, é necessário que providências sejam tomadas. A priori, o poder legislativo deve instituir leis que criminalizam o preconceito linguístico, a fim de diminuir as vítimas dessas intolerâncias e aumentar a inclusão desses indivíduos socialmente. Ademais, o Ministério da Educação deve discutir sobre possibilidades de apresentar, na carga horária escolar da Língua Portuguesa, aulas de campo que visam a integração da diversidade linguística, como excursões e passeios, normalizando as variantes e acarretando uma homeostase social, livre do preconceito.