Preconceito Linguístico
Enviada em 01/10/2018
“O Brasil é a mais avançada democracia racial do mundo.” A máxima do sociólogo Gilberto Freyre descreve a harmonia que a sociedade canarinha, étnica e culturamenlte diversa, apresenta na teoria. Todavia, o preconceito linguístico que hoje tem se tornado crescente na realidade brasileira, reflete em um corpo social que não respeita e valoriza as pluralidades desse país. Sob essa ótica, é nítido que a cultura de impor uma linguagem pelo viés educativo e o reforço dos estigmas pela mídia são bases dessa problemática.
A priori, a utilização da língua como instrumento de segregação pelos detentores do saber não é algo novo. Nesse âmbito, durante o Brasil Colônia, a imposição jesuítica do português aos índios, deixa nítido o quanto estimar um único linguajar é capaz de infringir a cultura de um povo. De maneira análoga, a valorização da gramática normativa, sobretudo, pelas escolas, constrói uma imagem que deprecia os diversos dialetos e, ao mesmo tempo, fortalece o preconceito e a intolerância. Sendo assim, a ideia de que existe uma maneira certa ou errada de falar incutido pelo sistema educacional acaba se configurando, conforme o positivista Émille Durkheim, como uma imposição coercitiva, o que cria um complexo de inferioridade e uma autorejeição nos variantes da língua.
Outrossim, a mídia fortalece os estereótipos que envolvem esse impasse. Nesse contexto, a representação exagerada dos personagens nordestinos nas telenovelas no intuito de gerar sarcasmo, é apenas mais um exemplo da ridicularização das diversidades linguísticas. Desse modo, os telespectadores, sem nenhum conhecimento crítico, viabiliza a persistência dessas visões pejorativas, ao aceitá-las e transmití-las. Isso ocorre porque, de acordo com o sociólogo Pierre Bourdieu, em sua obra “Poder Simbólico”, boa parte da sociedade banaliza o preconceito e não percebe o quanto o ele fere os direitos humanos, o que contribui para que a intolerância da língua se solidifique.
Nessa perspectiva, é preciso desconstruir o preconceito fortalecido pela mídia e pelas escolas. Para tanto, as instituições de ensino, com o apoio do Ministério da Educação, devem realizar aulas pedagógicas que façam uma afirmação à pluralidade linguística do Brasil, por meio de atividades voltadas para a construção de textos literátios e peças teatrais que utilizem os dialetos das diversas regiões do país, a fim de fomentar o conhecimento e quebrar estigmas. Concomitantemente, as próprias mídias sociais podem fortalecer a cultura popular e as falas brasileiras, revendo seus conteúdos depreciativos, além de expor campanhas cinematográficas que enalteçam e respeitem a diversidade nacional, de modo a transmitir imagens mais plausíveis. Nessa conjuntura, será possível fazer jus à verdadeira democracia de raças.