Preconceito Linguístico

Enviada em 01/10/2018

Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, o defunto-autor de Machado de Assis diz que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Decerto em 2018 ele concluísse estar certo, pois o preconceito linguístico é uma das faces mais perversas do brasileiro. Com isso, surge a questão da discriminação linguística no Brasil, seja pelo não cumprimento das cláusulas pétreas, seja pela lenta mudança de mentalidade social, e corrobora o personagem machadiano.

De início, é incontestável que a falha na aplicação da Constituição esteja entre as causas do problema. De acordo com o Artigo 3 constitucional, o brasileiro tem o direito de ter uma sociedade livre, justa e solidária. No entanto, é possível perceber que, no Brasil, a prenoção idiomática impede esse direito de ser desfrutado; haja vista que muitos se utilizam do sentimento de superioridade de quem fala a norma culta para externar ofensas e excluir socialmente pessoas que falam uma variação menos formal do idioma. Tal atitude não condiz com a Magna Carta e ratifica Brás Cubas.

Outrossim, segundo o escritor Marcos Bagno, as pessoas das classes cultas de qualquer lugar no Brasil dominam melhor a língua padrão do que as das classes não cultas desses lugares. Ademais, Durkheim diz, ainda, que o fato social é a maneira coletiva de agir e de pensar. Assim sendo, observa-se que o preconceito linguístico pode se fortalecer, uma vez que se uma criança de uma classe culta testemunha esse comportamento em casa, ela tende a adotá-lo também por conta da vivência em grupo. Assim, a mudança da mentalidade social demora a acontecer e legitima o defunto-autor.

Destarte, infere-se que a discriminação linguística é um mal para a sociedade brasileira. Portanto, cabe ao Governo Federal construir delegacias especializadas em crimes de ódio contra as línguas regionais, a fim de atenuar a prática do preconceito na sociedade, além de intensificar a pena para quem o praticar. Isso auxilia na aplicação da Constituição. Ainda cabe à escola criar palestras sobre as variações do português, com o fito de informar crianças e jovens sobre as diferenças dialéticas no país, de diminuir, assim, o preconceito idiomático, e de promover a mudança da mentalidade social. Deste modo, com essas propostas postas em prática, constrói-se, então, uma sociedade mais justa e fiel aos princípios da Constituição, e cria-se um país de que Brás Cubas pudesse se orgulhar.