Preconceito Linguístico
Enviada em 29/09/2018
A colonização híbrida e o vasto território foram os fatores que propiciaram a existência de uma enorme gama de línguas e dialetos no Brasil. No entanto, isso também possibilitou a prevalência de uma variante linguística de maior prestígio, em detrimento de outra considerada inferior. Essa prerrogativa corrobora com a existência e persistência de preconceito linguístico entre brasileiros de diferentes classes sociais e regiões.
Em primeira análise, consoante o filósofo Voltaire, o preconceito nada mais é que opinião sem conhecimento. Acerca disso, pode-se inferir que a discriminação de um cidadão por possuir uma fala que se distancie do português padrão é o reflexo do desconhecimento da heterogeneidade e coexistência de diferentes influências na composição da língua nacional. Logo, é errônea associação de alguém que utiliza um dialeto informal para se comunicar com o rótulo de que possui intelecto questionável. De modo que, os grupos brasileiros foram influenciados também por línguas africanas, indígenas e espanholas. E estas puderam influir mais ou menos em diferentes lugares do país, configurando hoje, a variação linguística diatópica.
Ainda sobre essa conjectura, o linguista brasileiro Marcos Bagno caracteriza a língua como um mecanismo ideológico de poder e controle. Isso se explica, pois ao ser estabelecida uma variante superior, as outras, automaticamente, são inferiores a esta. Entretanto essa hierarquia em um contexto desigual de influências e de acesso à educação formal, como no Brasil, efetiva o preconceito e rebaixa pessoas dentro deste sistema. Dessarte, é relevante que a existência de diferenciação social baseada no pressuposto linguístico seja descontinuada pelas instituições de ensino, de maneira que, a variação utilizada por cidadãos de diferentes grupos sociais ou regionais, não determine sua capacidade intelectual.
Diante do exposto, políticas são necessárias para “desinstitucionalizar” a intolerância linguística no Brasil. Para isso, é inalienável que o Ministério da Educação, em parceria com as instituições de ensino públicas e privadas, provenha a confecção e adoção de apostilas didáticas sobre diferentes culturas linguísticas, para serem aplicadas em escolas. Conjuntamente à essa ação, o MEC deve promover palestras sobre o tema - a fim de elevar academicamente o aprofundamento desse debate - para todos os níveis de ensino, com ênfase nos futuros professores. Para, logo, coibir o preconceito através do conhecimento, como infere Voltaire.