Preconceito Linguístico
Enviada em 28/09/2018
Orgulho Policarpiano
Policarpo Quaresma — personagem da obra de Lima Barreto — era um homem extremamente fiel e adorador do Brasil, dessarte, de modo utópico, Quaresma idealizava um país isento de problemas sociais. Conquanto, parafraseando Drummond de Andrade, a construção civil brasileira encontra uma pedra no caminho para o alcance das perspectivas de Policarpo. A exemplo disso, o preconceito, sobretudo, linguístico, figurando a imprescindibilidade de intervenções que considerem aspectos sociais e políticos.
Incontestavelmente, o Brasil foi construído sob raízes sociais, culturais e étnicas, díspares. Desse modo, constituindo um dos legados da nação canarinha, a língua brasileira fundamenta um dos patrimônios imateriais mais solenes do país. Em contrapartida, é imprescindível considerar que todas as variações da língua — sejam elas diacrônicas, regionais ou sociais — constituem, similarmente, essa herança nacional. Partindo desse pressuposto, torna-se incabível o preconceito de qualquer natureza ao seu semelhante por sua abordagem linguística, haja vista que a heterogeneidade é uma das características mais marcantes do Brasil.
Não obstante, ainda que o assédio linguístico suscite intolerância e repressão ao indivíduo que foge da gramática normativa, essa postura não é constitucionalmente criminalizada. Sob tal ótica, de acordo com Immanuel Kant em sua teoria do Imperativo Categórico, os indivíduos deveriam ser tratados, não como coisas que possuem valor, mas como pessoas que têm dignidade. Em analogia, observa-se que a sociedade brasiliense, tacitamente, tem ido de encontro ao postulado filosófico, uma vez que a falta de uma lei que atenue e apene o estorvo, funciona como uma forte base da perpetuação desse problema no Brasil.
Ainda que no caminho ao combate do preconceito linguístico exista uma pedra, nele também existe a esperança de transformação. Diante disso, faz-se necessário a atuação do Ministério público em consonância com as empresas privadas do sistema midiático, na realização da abordagem do assunto nos meios comunicativos populares, no intuito de transmitir no que tange a heterogeneidade da língua brasileira como parte da cultura do país, precavendo futuros assédios linguísticos. Outra iniciativa plausível, primordialmente, é a criação de uma lei que criminalize e apene essa postura discriminante, originada pelo Poder Legislativo em parceira com o Poder Executivo, a fim de atenuar e penalizar os praticantes do preconceito linguístico. Assim, poder-se-á criar um ideal de que Policarpo Quaresma pudesse se orgulhar.