Preconceito Linguístico
Enviada em 28/09/2018
LÍNGUA QUE CALA
A veneração e admiração exacerbada à norma culta da Língua Portuguesa cria, em contrapartida, um desprezo pelas demais variantes linguísticas. Dessa maneira, na tentativa falha de criar um idioma homogêneo, excluem-se dialetos, expressões ou gírias que ameacem a norma padrão, negligenciando o valor cultural inserido nesses elementos. Ao eventual falante é reservado um estereótipo de pobre, sem escolaridade, necessitado de um bom professor que consiga alinhá-lo ao que é “correto”.
Ademais, principalmente no meio acadêmico, perpetua-se a ideia errônea de que os indivíduos devem se adequar às normas gramaticais, não o contrário. Sendo de grande uso, inevitavelmente ocorrerão alterações, tornando algumas regras até obsoletas. Admitir essa fraqueza, no entanto, envolve modificar um princípio estático há dezenas de anos, responsável por dar aos linguísticos a imagem de perfeitos e, por isso, incontestáveis.
Da mesma maneira, a exemplo da Semana de Arte Moderna de 1922, somente os escritores comprovadamente em par das regras gramaticais podiam fazer obras utilizando variedades linguísticas, uma ostentação indireta do seu conhecimento. Essas dualidades, entre aceitar o uso de dialetos ou expressões quando parte de alguém renomado, mas julgar quando o autor é oriundo do meio onde se utiliza a variante linguística, acabam fortificando o preconceito, porque não dá voz para aqueles que poderiam representar seus grupos.
Como resultado da falta de visibilidade, incontáveis brasileiros deixam de falar como seus pais, avós, colegas, como a sua comunidade, tudo para se encaixar em um grupo do qual não faz parte, consequência da vergonha e julgamento que sofre no ambiente escolar, no trabalho, nas redes sociais, etc. Aos poucos, a identidade nacional torna-se confusa, uma vez que não tem a capacidade de falar de acordo com todas as regras, nem a permissão de falar livremente.
Assim sendo, é necessário rever os métodos de ensino da Língua Portuguesa, com o envolvimento completo do Ministério da Educação e suas respectivas Secretarias. Afinal, sendo as variantes linguísticas tão diversas e em diferentes localidades, é preciso atentar-se para uma abordagem especial para cada região. Quanto à mídia, é vital a reformulação de programas humorísticos e novelas que deturpam a imagem dos falantes, deixando de inseri-los em preconceitos que empobrecem sua importância cultural. Por fim, deve partir do próprio cidadão o empoderamento e compreensão de que desvios da norma culta não necessariamente são inadmissíveis, mas tão somente as maiores demonstrações da riqueza da Língua Portuguesa.