Preconceito Linguístico

Enviada em 28/09/2018

Durante o processo de colonização do Brasil, a imposição da língua portuguesa e as influências dos franceses, italianos e africanos possibilitaram uma miscigenação dialética no vasto território brasileiro, o que propiciou as diversas variantes linguísticas presentes atualmente. Contudo, essa diferença inter-regional e sócio-cultural na pronúncia nem sempre é aceita e respeitada por todos no país, haja vista que há estereótipos os quais inferiorizam a fala do nordestino, do que vive no interior e dos que moram nas periferias. Nesse sentido, o desrespeito para com as variantes da língua garante o surgimento do preconceito linguístico advindo de um etnocentrismo que consequentemente leva a segregação social.

Em primeira instância, o preconceito é gerado pela intolerância das diferenças linguísticas existentes em um idioma, como gírias, dialetos ou sotaques provenientes das questões sociais, culturais e históricas de cada região. Por conseguinte, a língua foi se moldando na grande extensão do território brasileiro às necessidades e culturas que estavam mais presentes em determinados locais. Desse modo, entender que em um país continental como o Brasil há variedades linguísticas entre diferentes grupos sociais, profissionais e regionais é respeitar as características intrínsecas e o patrimônio cultural de cada grupo, logo, discriminar algumas formas de expressão configura etnocentrismo e falta de conhecimento da história de um país.

Somado a isso, o livro “Preconceito Linguístico”, do linguista e escritor brasileiro Marcos Bagno, afirma que o conhecimento da gramática normativa é utilizado como instrumento de dominação pela população culta. Ou seja, regiões economicamente mais desenvolvidas como Sul e Sudeste inferiorizam os sotaques e dialetos do Nordeste e sentem-se detentores da intelectualidade da norma-padrão portuguesa, o que torna possível a construção de estereótipos que classifiquem nordestinos como analfabetos e atrasados. Por certo, o preconceito que se estende às regiões metropolitanas com periferias desconstrói a função social da língua a qual ao invés de unir, socializar e garantir a comunicação entre cidadãos, cria-se opressão, discriminação e exclusão social pela linguagem.

Portanto, hodiernamente a língua em grande parte do Brasil é usada como ferramenta de distinção social e causa de exclusões. Assim, cabe ao Ministério da Educação e das Comunicações, por meio de palestras e eventos que visem ressaltar as diversas variantes da língua, evidenciem seu caráter múltiplo. Com ajuda de professores e especialistas realizem reportagens em telejornais e campanhas nas redes sociais que busquem desconstruir a ideia de que há certo ou errado e retratar a importância da diversidade, a fim de evidenciar nacionalmente que a fala não se institui como forma de discriminação, mas sim de manifestação da cultura e socialização das pessoas.