Preconceito Linguístico
Enviada em 28/09/2018
Na semana da Arte Moderna, em 1922, os modernistas propuseram uma valorização do verso livre e da linguagem regional.No entanto, esse ato foi extremamente mal visto devido à grande exaltação que a norma culta tinha no período. É incontrovertível que no Brasil hodierno esse ultrapassado e inapropriado ideário de língua ainda se perpetua, abrindo, por consequência, a discussão sobre o preconceito linguístico que é inerente à atual conjuntura, em razão de aspectos históricos e que causam efeitos negativos, como a segregação social.
Em primeiro plano, é necessário enfatizar que fatores históricos são construtores do preconceito linguístico. Durante a colonização do Brasil, por exemplo, a coroa portuguesa – imersa em seu próprio etnocentrismo – impunha a língua portuguesa como correta e superior e inferiorizava os idiomas e dialetos já existentes na Terra Tupiniquim. Desse modo, ocorre um processo de consolidação do ideal de superioridade da língua portuguesa como única e absoluta, falácia que é transmitida a muitas pessoas fazendo dela um aspecto cultural. Sob essa perspectiva, o filósofo Émile Durkhein afirma que uma conduta várias vezes praticada tem capacidade, por meio do Fato Social, de coagir os demais indivíduos envolvidos em uma mesma sociedade. Logo, infere-se que o preconceito linguístico iniciado pelos portugueses foi amplamente difundido devido a capacidade de coercitividade do Fato Social.
Também é possível somar as questões históricas citadas ao fator da segregação social proveniente do preconceito linguístico. Assim, devido a fatores históricos e culturais a norma culta tornou-se sinônimo de alto poder aquisitivo, intelectualidade e boa educação, atribuindo ao sujeito que fuja a essa fala o estereótipo de caipira, pobre e mal educado. Entretanto, a premissa associada a Jean-Paul Sartre defende que ‘’ O indivíduo é produto do meio, produto dos homens”. Sob esse viés, é coerente que o sujeito não fale a norma padrão e sim um português marcado pelo regionalismo, em virtude da extensão territorial do Brasil e a pluralidade de cada região, fazendo do preconceito linguístico algo inadmissível na atualidade.
Torna-se evidente, portanto, que aspectos históricos fomentaram esse preconceito dissonante. Para que isso não seja mais realidade, urge, ao Ministério da Educação, a introdução de palestras acerca da incoerência do preconceito linguístico na modernidade e da importância do respeito a fala diferente da normativa. Tais palestras devem ser ministradas por linguistas no ensino fundamental e médio, em escolas públicas e particulares, a fim de criar uma consciência no tocante a essa questão nas gerações futuras. Dessa maneira, os ideais de língua pregado por modernistas não serão mais mal vistos pela sociedade.