Preconceito Linguístico

Enviada em 22/10/2018

A língua portuguesa é decorrente de séculos de variações do Latim na região da Lusitânia. De forma parecida, o português brasileiro passa por modificações desde o século XVI, com a influência de outras culturas e a incorporação de aspectos de outras línguas o idioma apresenta hodiernamente singularidades próprias em cada região, faixa etária e classe social. Todavia, particularidades sem nenhum prestígio social fomentam atos delituosos de preconceito, que por o português ser um organismo vivo passível de variações dentro das distintas realidades do povo brasileiro, atitudes como essas são, portanto, injustificáveis.

A princípio, o Brasil não só é o quinto maior país do globo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), como também o décimo mais desigual de acordo com as Nações Unidas, características que ao contrário do que afirmou o sociólogo Darcy Ribeiro o impedem de ser homogêneo linguística e culturalmente. Ademais, uma população que segundo o IBGE é superior a 200 milhões de habitantes, desconectados entre si e com realidades diferentes favorece essa heterogeneidade. Desse modo, variações como as diatópicas e diastráticas são perfeitamente compreensíveis, e assim como escreveu Monteiro lobato em 1934, quando “os costumes são outros, a natureza é outra, as necessidades de expressão tornam-se outras”.

Nesse sentido, ainda que o linguajar atenda o principal objetivo da língua, a comunicação, a discriminação pela forma de se expressar permanece frequente. Além disso, a deficiência do Estado em educação promove uma discrepância entre a oralidade de determinados grupos e a norma culta da língua, essa diferença é o principal fundamento do assédio linguístico, uma vez que o modo de falar das vítimas é inferiorizado quando comparado a um modelo de escrita arcaísta, não utilizado oralmente pela maioria absoluta da população. Segundo Mário Alberto Perini: “Há duas línguas no Brasil, uma que se escreve e outra que se fala”, entretanto, parte da população conhece apenas uma delas.

Infere-se, portanto, que a língua portuguesa é um organismo vivo que passa por constantes variações linguística, que serão diferentes em cada região, classe social e faixa etária. Por certo, é necessário que escolas, professores, alunos e famílias, promovam campanhas, debates e palestras frequentes para o reconhecimento da diversidade de variações na oralidade, que são peculiaridades relevantes de cada grupo e região. Outrossim, é de suma importância o conhecimento da modalidade formal da língua, com mais investimento do Ministério da Educação na educação básica, fundamental e média, para maior valorização da língua portuguesa, afinal, segundo Paulo Freire: “Se a educação não muda a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”.