Preconceito Linguístico

Enviada em 27/09/2018

A formação cultural do Brasil retoma sua própria constituição enquanto nação e a miscigenação – resultado da mistura das etnias que desembarcavam no Novo Mundo – foi um processo relevante durante a história brasileira. Evidentemente, o falar do brasileiro se moldou à medida dessa mistura sofrendo influências dos usos e costumes de cada região e ganhando traços característicos. Neste processo, o preconceito linguístico surgiu como uma reação negativa às inúmeras variações que emergiam.

Em primeira análise, vale ressaltar que a variação linguística se refere a forma de expressão usada no dia-a-dia pelos grupos sociais em seu meio de convívio. Sendo assim, a internet é um bom exemplo deste meio que surge um novo falar, outrossim, a gíria representa a identidade linguística de determinados grupos acionada para situações informais. Analogamente, Guimarães Rosa marcou a literatura brasileira ao valorizar em suas obras os regionalismos da língua e suas peculiaridades, também inovando o falar através de seus neologismos, a arte de criar palavras. Neste aspecto, depreende-se que o idioma é uma característica cultural que busca representar uma visão de mundo de cada comunidade, devendo, enfim, transmitir uma mensagem, tal qual ocorre nas icônicas obras de Rosa ou nos meios digitais.

Entretanto, como toda particularidade, esta também sofre com a imposição de padrões que buscam homogeneizá-las. O estudo da palavra pelo seu registro é exemplifica sua invenção de classe, à medida que, historicamente, uma pequena parcela da população possui acesso ao ensino da norma culta eficaz e o seu domínio. Ademais, cabe destacar que a língua está em constante mudança, como verifica-se na substituição da “vossa mercê” pelo “você” ao longo das décadas, portanto, seu estudo pela escrita dificulta o entendimento dessas mudanças decorridas ao longo do tempo. Destarte, o preconceito linguístico não reconhece a língua tal qual um organismo vivo, podendo sofrer constantes readaptações para o seu uso.

Além dessa análise, como pontua o exímio autor Ariano Suassuna: “eu não troco meu ‘oxente’ por ‘ok’”, urgem medidas que busquem valorizar as características de cada dialeto a fim de romper com a lógica de um código certo e outro errado para a comunicação. Portanto, cabe ao Ministério da Cultura o incentivo financeiro às artes de expressão da cultura popular - como o teatro de rua ou a música - que enalteçam as variações linguísticas e exposições culturais que valorizem a formação cultural do Brasil. Essas medidas buscam conscientizar a população da beleza da língua portuguesa e dos seus inúmeros dialetos.