Preconceito Linguístico
Enviada em 07/09/2018
Na obra literária, “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre, escritor brasileiro, o autor defende que a pluralidade cultural presente no Brasil forma a identidade nacional, a qual deve ser respeitada independentemente da forma de expressão. Entretanto, observa-se um distanciamento desse ideal na contemporaneidade, uma vez que apesar do dinamismo da língua portuguesa, inúmeros cidadãos são vítimas de preconceito linguístico. Logo, a fim de compreender o problema e alcançar melhorias, basta analisar como a mídia e o modelo tradicional de educação brasileiro influem nesse cenário.
Em primeiro lugar, vale ressaltar que a Constituição Federal de 1988 estabelece que ninguém deve ser submetido a tratamento desumano ou degradante. Contudo, uma parcela da sociedade brasileira é tratada de forma humilhante em razão do linguajar distinto. Isso ocorre, sobretudo, devido as imposições midiáticas que estabelecem como oficial uma determinada variedade linguística, dando origem a um processo de exclusão. Por conseguinte, as retratações em novelas de personagens nordestinos como indivíduos rústicos e atrasados ajudam a disseminar o preconceito. Assim, percebe-se uma contraposição com a frase de Martin Luther King, ativista estadunidense, “Toda hora é hora de fazer o que é certo”, haja vista que ao invés de erradicar o preconceito linguístico, a mídia estimula.
Ainda nessa questão, é fundamental pontuar que, a língua está totalmente ligada à estrutura educacional e social do país, e os falantes da norma culta são aqueles que apresentam maior nível de escolaridade. Dessa forma, ao estabelecer que há uma única língua portuguesa correta, que é a ensinada nas escolas e baseia-se na gramática normativa, ela passa a ser utilizada para distinguir as pessoas que têm acesso à educação das que não possuem. Para corroborar, em 2016, o médico Guilherme Capel Pasqua expôs na internet os erros cometidos por um paciente, que dizia “peleumonia” ao invés de pneumonia. Isto posto, percebe-se que ao não reconhecer a língua como uma unidade mutável, a intolerância e a discriminação social proeminentes no país são intensificadas e perpetuadas.
Nesse sentido, ficam evidentes, portanto, os elementos que colaboram com o atual quadro negativo do país. Ao Ministério da educação, cabe a elaboração de palestras públicas e rodas de conversa em escolas, sobre o preconceito linguístico e as consequências sociais, além de ensinar, nas aulas de Português, todas as variantes existentes na língua por meio de obras modernistas que apontam diferenças regionais, com o objetivo de auxiliar na formação de cidadãos conscientes e respeitosos. É imprescindível, também, que a mídia pare de estereotipar personagens de acordo com a sua maneira de falar e aborde o tema de forma educativa, por intermédio de campanhas, e mostre a importância das variações existentes na língua portuguesa, com o propósito de desconstruir o preconceito linguístico.