Preconceito Linguístico
Enviada em 10/09/2018
Na distopia “1984”, de George Orwell, a criação da “novilíngua”, espécie de novo idioma que encurta e remove palavras que possam dar margem a ideologias opositoras do poder, expõe o papel de coerção social que a língua possui sobre os povos. No Brasil, é possível percebê-lo por meio dos casos de preconceito linguístico presentes em seu cotidiano, em que a linguagem é muitas vezes utilizada como instrumento de segregação.
Com o intuito de falar sobre a linguagem e seu feitio segregador, o filósofo alemão Friederich Nietzsche, em um de seus textos, afirmou que ela poderia apresentar dois tipos de uso: o majoritário, que consiste na linguagem padrão e cheia de estereótipos e o minoritário, que é um modo de resistência à falta de fluidez da linguagem. No caso do Brasil, a permanência de idiomas indígenas, por exemplo, é uma forma de resistência ao etnocentrismo decorrente da colonização.
Além de Nietzsche, o filósofo Michel Foucault defendia a ideia de que o poder sempre encontra-se associado a alguma forma de conhecimento, que é utilizado como instrumento e justificação. Desse modo, legitima-se a segregação e monitoramento de corpos dos indivíduos. Quando um sujeito exerce preconceito linguístico sobre outro, está a reproduzir o comportamento colonizador que lhe é incitado historicamente, pois não é capaz de exercer a alteridade e relativizar o contexto social que o outro está inserido.
Contrariamente ao papel fascista exercido pela língua, o sociólogo francês Roland Barthes propõe como alternativa a literatura, ao tratá-la como modo de resistência, o qual combate o aspecto rígido e estereotipado linguístico. Sendo assim, depreende-se que obras literárias, como “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa, a qual apresenta riqueza de vocabulário típico da região sertaneja, é uma forma de se combater a ideia de que apenas certo modo de falar é o correto.
Em síntese, pode-se dizer que o preconceito linguístico é um comportamento incitado pelo biopoder, que torna majoritário a ideia de que a linguagem padronizada é a única correta. Com o intuito de mitigar esses casos, é imprescindível que o Ministério da Educação torne obrigatório nas escolas a leitura de obras que mostrem p linguajar típico de certos grupos sociais ou regionais, de modo a inserir o aluno nesses contextos. Como resultado, estarão sendo formados cidadãos capazes de exercer a alteridade e não só não exerçam como também possam ajudar a combater os casos de preconceito linguístico no país.