Pobreza em evidência no Brasil

Enviada em 14/07/2021

O poema “O Bicho”, do literato modernista Manuel Bandeira, denuncia uma fratura da realidade brasileira, muito presente na primeira metade do século XX, onde os problemas famélicos e a miséria bestificam e animalizam os seres humanos ante o colapso social. Fora do contexto de sua época, percebe-se, hodiernamente, o aumento da extrema pobreza no país, devido ao contexto pandêmico de crise sanitária aliado ao relapso estatal em oferecer soluções. Faz-se, dessa forma, urgente a adoção de medidas assistenciais.

A princípio, o brasileiro médio tende a relevar a urgência de se resolver a crise humanitária e social da pobreza abismal, dado que tal incógnita social foi parcialmente resolvida, no passado, com a implementação de campanhas de cunho social, tais como o Fome Zero e o Bolsa Família. Não obstante, vale frisar os efeitos destrutivos da atual crise sanitária do coronavírus, onde ocorre o contágio generalizado do vírus Sars-Cov-2. Em tal quadro, o colapso não só ceifou vidas, como também elevou o desemprego no país, dada a necessidade de isolamento social, uma das medidas não farmacológicas imprescindíveis na contenção do contágio infeccioso.

Nesse contexto, concomitante à degradação sanitária e econômica, ocorre certo desleixo do Estado brasileiro em assistir os grupos mais marginalizados. De acordo com o geógrafo e estudioso Milton Santos, a cidadania brasileira é mutilada, visto que as previsões e garantias constitucionais, em geral, estão subordinadas à renda de cada classe social. Desta forma, embora, inicialmente, o governo federal ofertasse um auxílio emergencial de R$600,00 no ano de 2020, tal valor não foi o bastante, como também não o é em 2021, com auxílio de R$300,00, pois não condiz com o custo de vida de grandes metrópoles. Assim, além da subjugação do direito à saúde, ante o colapso sanitário, ocorre também o colapso humanitário e social, reduzindo a humanidade à animalização, conforme Manuel Bandeira escreveu.

Faz-se, destarte, mister a adoção de medidas exequíveis na melhor distribuição de renda entre os socialmente excluídos. Assim, o Estado brasileiro, representado pelo Ministério da Cidadania, em conjunto com o Ministério da Economia, deve empreender um conjunto de campanhas para garantir renda entre os mais pobres, na medida que a campanha de vacinação avança. Tais campanhas consistiram no repasse de auxílios emergenciais condizentes com o custo de vida de cada município às pessoas que receberão. Isso será feito por meio de um crédito ofertado pelo banco Caixa Econômica, de modo a garantir a subsistência das famílias que vivem na extrema pobreza. Somente dessa forma, será possível garantir a humanização do bicho.