Os perigos das Fake News na era da informação
Enviada em 08/10/2018
No livro “Admirável Mundo Novo”, Aldous Huxley temia que a verdade fosse tida como irrelevante. Hoje, com a disseminação de notícias falsas, o temor do escritor foi concretizado, visto que a veracidade das informações, em muitos casos, não é considerada na publicação ou no compartilhamento de pós-verdades. Nesse viés, nota-se uma problemática persistente, ora devido à sua origem histórica, ora em função da alienação dos usuários na internet.
É pertinente analisar, a princípio, a questão sob o prisma historiográfico. Em tal panorama, é sabido que, a partir de fatos distorcidos, os libelos contribuíram para deturpar a integridade social de personalidades na Europa do século XVIII. Hoje, as afirmações falaciosas se reverberam com a internet, uma vez que não há limite físico que impeça a propagação dessas informações. Consequentemente, a disseminação de boatos ganhou contornos mundiais e, tendo como o objetivo a manipulação da opinião das massas, passou a interferir em processos eleitorais, como o boato de que Hillary Clinton seria fundadora do Estado Islâmico, o que prejudicou a sua candidatura nos Estados Unidos. Dessa maneira, tal manipulação coloca em xeque os valores democráticos contemporâneos, seja por prejudicar o acesso às informações verdadeiras, seja por denegrir a imagem de alguém.
Vale assinalar, também, que a passividade dos usuários na rede mundial de computadores funciona como empecilho para a resolução do entrave. Sob essa ótica, conforme dados do SPC Brasil de 2018, 40% dos entrevistados disseram não checar a veracidade das informações lidas na web com frequência. Tal dado, por sua vez, é reflexo da inação do usuário para verificar a autenticidade dos fatos que serão partilhados. Concomitantemente, a ineficaz educação digital dificulta a consolidação do hábito de checagem de notícias para uma parcela da população, visto que o debate acerca dessa questão não pertence ao currículo pedagógico das escolas. Dessa maneira, o estudante finaliza o período escolar sem ter o pleno conhecimento acerca do uso consciente das tecnologias da informação e, por conseguinte, serve como instrumento para disseminar notícias falsas.
Com fito de promover o consumo de informações verdadeiras, urge, portanto, que o Ministério Público desenvolva campanhas para o monitoramento e a exclusão de notícias inverídicas, bem como a punição de seus criadores, por meio de um aplicativo em que os usuários possam denunciar publicações de “fake news”, para que haja facilidade no acesso às informações verdadeiras. Em adição, o Ministério da Educação deve tornar obrigatório o debate acerca dessa problemática, por intermédio de grupos de discussão com especialistas em tecnologia da informação, visando ao uso consciente dos dispositivos digitais. Assim, o temor de Huxley caracterizará apenas o seu livro.