Os perigos da instabilidade política e o surgimento de um herói patriota

Enviada em 31/05/2022

“O homem é um animal político.” Essa frase de Aristóteles sintetiza o caráter social do ser humano que, diante de sua incompletude, busca no coletivo aquilo que lhe falta. Nesse sentido, desde o surgimento da democracia em Atenas, a política sempre foi o meio pelo qual as pessoas buscaram as mudanças necessárias ao aprimoramento do seu sistema de convívio. Fugindo dos moldes da democracia ateniense, o Brasil vem, nos últimos anos, acompanhando a tendência mundial de “demonização” da política e eleição de heróis nacionais. Esse cenário de distorção pode ser explicado, sobretudo, pela descrença no setor político do país e pela crise de representatividade.

A princípio, a falta de confiança nos personagens políticos tradicionais facilita o surgimento de salvadores da pátria. Michael Sandel, em seu livro “A tirania do mérito”, analisa o surgimento do “fenômeno” Trump nos EUA. Ele argumenta que a sua eleição reflete a identificação de boa parcela do eleitorado com uma figura que foge aos estereótipos de político tradicional e que poderia promover medidas inovadoras. Traçando um paralelo com o Brasil, o discurso do “não-político” também ecoou nas eleições brasileiras, elegendo Bolsonaro. Os resultados desse movimento do eleitor podem ser medidos nos índices sociais e econômicos que despencaram ao longo do mandato do presidente, levando o país a enfrentar uma das piores crises das sua história. Vê-se, pois, que “heróis” nacionais não são capazes de suprir as expectativas dos seus eleitores.

Em consonância com a ideia anterior, é sabido que a crise de representatividade arruina o debate público de ideias. No livro “Como morrem as democracias”, os autores discutem como chefes de Estado considerados, em algum momento, carismáticos e fora da classe política tradicional levaram ao surgimento de regimes totalitários na Europa do século XIX. Sob um aparente verniz democrático, figuras como Hitler e Mussolini ascenderam ao poder, aniquilaram os oposicionistas e instauraram ditaduras sanguinárias. Portanto, torna-se evidente que soluções imediatistas acabam minando a discussão de propostas de interesse da sociedade.

Diante do exposto, é claro que o país passa por uma crise política sem precedentes que precisa ser endereçada. Para tanto, é vital que a sociedade civil se mobilize, não só por meio de audiências públicas, como também propondo candidaturas alternativas para a disputa das eleições. Dessa forma, é possível aumentar a representatividade de políticos que correspondam às suas expectativas, fazendo com que a eleição de figuras controversas fique cada vez mais difícil. Afinal, somente o debate público de ideias é capaz de reconduzir o homem ao seu caminho de animal político. Quaisquer atalhos poderão custar caro ao futuro do país.