Os perigos da indústria farmacêutica
Enviada em 26/06/2020
No livro “Inferno” de Dan Brown, o simbologista Robert Langdon é imerso na obra Divina Comédia de Dante Alighieri e, ao decorrer do enredo, tenta impedir a propagação de um arma biológica desenvolvida pelo cientista Bertrand, que objetivava dizimar parte da população global. Consoante à ficção, em cenário hodierno, a indústria farmacêutica age de forma análoga ao cientista da narrativa e, impulsionada pelo capitalismo e pela ascensão tecnológica, apropria-se de artifícios ilegítimos para induzir o consumo de medicamentos em larga escala e sem orientação médica, suscitando, assim, uma crise de saúde mundial. Nesse contexto, torna-se necessário que uma força resolutiva desloque o impasse da inércia. Primordialmente, pode-se inferir que o ideal de acumulação de capital por parte das indústrias farmacêuticas detém protagonismo na formação do quadro problemático. Destarte, obtendo alicerce na corrente positivista do século XIX, o progresso atrelado ao desenvolvimento científico e econômico, baseado no ideário comtiano, configurou estímulo à consolidação de um sistema que pretende adquirir consumidores, deixando em segundo plano aspectos humanos como a qualidade de vida do público-alvo ou os riscos do produto oferecido. Nessa conjuntura, as indústrias de fármacos, visando a lucratividade máxima incentivada pelo sistema, vendem não apenas remédios, mas sugestionam sintomas em rede e, por meio de publicidade, atraem consumidores e criam hipocondríacos. Sob outra análise, o advento da internet e sua alta densidade de informação contribuem para a automedicação fomentada pela indústria farmacêutica, tornando recorrente a dispensa do auxílio profissional, substituído pelo conhecimento exposto em rede. Paralelamente, o fato histórico da descoberta da radioatividade, que marcou o século XX com propagandas incentivadoras de aceitação popular da radiação como componente de produtos, é visualizado de forma semelhante em cenário atual, notório pela presença de remédios ofertados à população e promovidos de forma receptiva pela internet, sendo esta um instrumento intensificador da influência publicitária preexistente. Contudo, indivíduos que se automedicam correm riscos de sofrer efeitos colaterais, fazer diagnósticos errados que comprometem a saúde e exceder doses pela falta de assistência profissional, que não é legitimamente suprida por fontes generalistas da internet. Assim, os efeitos tardios, tanto do episódio de fascinação pelo surgimento da radioatividade, quanto da atuação da indústria farmacêutica na sociedade contemporânea, também convergem no vilipêndio à saúde popular. Diante do supracitado, é mister que o Ministério da Saúde aja como força resolutiva, utilizando do artifício da internet para reverter o quadro, por meio de propagandas que exponham os riscos ligados ao autodiagnóstico e à automedicação, juntamente com o incentivo à procura por profissionais da saúde legitimados para correto direcionamento farmacológico, a fim de barrar o vilipendio à saúde provocado pela regência capitalista das indústrias farmacêuticas e deslocar o impasse da inércia. Desse modo, com as medidas tomadas, é possível que a arma biológica do cientista Bertrand não se propague em contexto real e limite-se à ficção.