Os perigos da indústria farmacêutica

Enviada em 26/06/2020

“Ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado.” Essa famosa frase, presente nos anúncios televisivos de diversas marcas de medicamentos, introduz a necessidade do diagnóstico médico prévio, para que assim sejam prescritas drogas para o tratamento de doenças. Entretanto, isso não acontece no Brasil, haja vista que essa propaganda estimula a população a tomar remédios por conta própria. Além da automedicação, essas empresas representam outro perigo à sociedade, o qual é justificado pela influência dos representantes farmacêuticos na prescrição irracional de medicamentos.

Em primeira análise, é sabido que os excessos de marketing industrial permanecem bem evidentes e estimulam a automedicação por parte dos pacientes. Segundo pesquisa realizada pelo ICTQ, em 2019, setenta e nove por cento dos brasileiros praticam a automedicação. Ainda, outro estudo executado pela USP, em 2007, mostrou que dezoito por cento dos idosos entrevistados relataram consumir medicamentos por influência da propaganda. Nesse viés, é fulcral salientar que, na maioria das vezes, as propagandas não deixam claras as formas de utilização dos medicamentos, muito menos os riscos inerentes ao seu consumo exacerbado. Tal prática contribui para que a população adquira o produto anunciado por conta própria e, a longo prazo, isto aumenta os riscos à saúde do paciente, que pode apresentar reações adversas decorrentes da administração de doses excessivas da droga.

Em segunda análise, há de se considerar a possibilidade de ocorrência de prescrições irracionais, que favorecem determinada marca em troca de benefícios oferecidos pelos propagandistas ao profissional médico. Um projeto australiano, que objetivava proibir as secretarias de marcarem visitas de representantes de laboratório, revelou uma queda de cinquenta por cento na prescrição de medicamentos após alguns meses de sua implementação. Dentro desse contexto, é possível contestar que nem todos os pacientes deixavam o consultório com uma receita em mãos, e que antes, muitos deles eram medicados desnecessariamente. Assim, a suposta prescrição sem a devida indicação, que visa promover uma marca para adquirir vantagens próprias em detrimento da saúde da população, representa uma prática nefasta e antiética, que deve ser observada pelos órgãos federais competentes.

Portanto, cabe a ANVISA combater a automedicação, por meio da criação de diretrizes que obriguem as empresas de medicamentos a anunciarem, em suas propagandas, como utilizá-los de forma racional e a reforçarem as suas principais contraindicações. Outrossim, cabe ao Conselho Federal de Medicina, reforçar a importância de uma postura ética entre os profissionais médicos, mediante a realização de simpósios on-line acerca do tema, transmitidos em várias plataformas digitais. Ambas as medidas visam reduzir os perigos trazidos pela indústria farmacêutica à sociedade brasileira.