Os perigos da indústria farmacêutica
Enviada em 15/10/2019
Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, ainda que cada sujeito possua sua individualidade, esta se entrelaça no contexto dos diversos grupos e instituições dos quais participa. Ao considerar esse olhar como ponto de partida para a discussão acerca dos perigos da indústria farmacêutica, percebe-se a influência dessa indústria sobre a construção das diversas peculiaridades do meio social. Torna-se pontual, nesse contexto, não apenas questionar como o viés mercadológico catalisa a construção desse problema, mas também analisar seus impactos no organismo social.
A partir dessa problematização, cabe compreender o viés mercadológico das indústrias farmacêuticas como danoso à sociedade. Atesta-se, portanto, o olhar de Bourdieu, em razão da influenciação das peculiaridades sociais pelas atitudes capitalistas agressivas adotadas por essa indústria. Vale salientar, também a lógica do medo criada pelas farmácias no intuito de movimentar o mercado, criando falsas necessidades de consumo baseadas na prevenção de doenças e na promoção do bem-estar. Não obstante, confirma-se também a ideia de José Saramago, isso porque em sua “falsa democracia” há a ilusão de livre escolha, enquanto estas são regidas pelo mercado, semelhante ao estímulo demasiado na venda de remédios nesse recorte temático. Dessa maneira, é nítida a necessidade de uma regulamentação do mercado e dessa lógica do capital para a atenuação dessas problemáticas.
Paralelamente à questão institucional, outro ponto relevante, nesse cenário, é como o contexto pós-moderno dificulta o combate ao problema. Observa-se, assim, o viés de Zygmunt Bauman, pois, em sua obra “O mal-estar na pós-modernidade”, o pensador advoga que o indivíduo contemporâneo age de maneira irracional por ser vitimado pela cegueira moral. Isso significa que na atualidade cria-se uma cultura de automedicação em razão da sociedade não alertar seus indivíduos para a reconhecerem como danosa, catalisada ainda pelo fator do estímulo do consumo pelas farmácias. Por conseguinte, a manifestação desse problema não só configura as pessoas como “cegas”, na analogia do pensador, mas também perpetua-o pela falta de reconhecimento do tema, podendo causar, inclusive, problemas de saúde pela falta de assistência médica nos casos de automedicação. Urge, então, a necessidade da reestipulação de valores sociais para combater o problema.
Entende-se, diante do exposto, a importância de medidas serem implantadas para a contenção do quadro atual. A princípio, é fundamental que o Ministério da Justiça fomente a redução da influência dessas empresas sobre o estímulo ao consumo, como por meio da criação de leis que restrinjam suas ações publicitárias, de modo a atenuar esse mercado construído pela lógica do medo e das falsas necessidades. Ademais, cabe aos Ministérios da Saúde e do Desenvolvimento Social o desenvolvimento de campanhas que, ao serem veiculadas nas mídias tradicionais, como televisão aberta e rádio, alertem a população dos riscos da automedicação, tornando-a mais ciente e deixando de realizar essa prática perigosa. Com essas iniciativas, espera-se que o entrelaçar entre os agrupamentos sociais, proposto por Bourdieu, possa conduzir a relações mais humanizadas.