Os perigos da indústria farmacêutica
Enviada em 29/08/2019
Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, do escritor Machado de Assis, o narrador relata seu desejo de juventude: produzir um medicamento que curasse a melancolia da humanidade. Fora da ficção, a indústria farmacêutica surgiu com um propósito análogo, gerar remédios para as enfermidades que afligem a espécie. Entretanto, tal objetivo mascara os perigos ofertados por essas corporações, a saber, o estímulo à automedicação e a “criação” de sintomas patológicos.
Em primeiro lugar, o estímulo a automedicação - isto é, consumo de remédios sem prescrição médica- é uma nocividade causada pela indústria farmacêutica. Segundo o sociólogo Walter Benjamin, a “Indústria Cultural” produz excessivamente suas obras artísticas a fim de massificar o consumo do público. Analogamente, as corporações farmacêuticas elaboram seus produtor com tal fito, alçado por propagandas televisivas, as quais, em muitos casos, estimulam a compra independentemente da existência de indicações médicas. Assim, a automedicação- condenada pela comunidade científica mundial- é fomentada no panorama nacional.
Ademais, a produção de sintomas é outro perigo estimulado pela indústria farmacêutica. De fato, muitos medicamentos ofertados por essas empresas apresentam “efeitos colaterais”. Devido a tais sintomas, os consumidores são, em muitos casos, impelidos a consumirem outros remédios para remediá-los, o que gera um ciclo consumista. Além disso, há produtos que geram vício no indivíduo, já que sua escassez produz sintomas de abstinência, fenômeno denunciado pelo médico Peter Gotzsche, na obra “Medicamentos Mortais e Crime Organizado”.
Em suma, urgem ações governamentais no sentido de coibir as perigos gerados pela indústria farmacêutica. Sob tal lógica, o Legislativo deve elaborar leis que tornem obrigatória a inserção, em propagandas geradas por tais empresas, de anúncios que recomendem a indicação médica para o consumo de medicamentos, medida que estorvará a automedicação no Brasil. Paralelamente, essa mesma esfera pública deve produzir uma legislação mais rigorosa, que exija testes específicos que indiquem os efeitos colaterais gerados por estes, para com remédios produzidos no País e importados. Assim, com tais medidas, o nobre desejo semelhante ao de Cubas poderá ser processado no território nacional.