Os efeitos da quarentena e da pandemia do novo coronavírus nas crianças

Enviada em 07/09/2021

Em uma das cenas de seu livro “Capitães da Areia”, o escritor Jorge Amado expõe, por meio da mente do protagonista Pedro Bala, os danos psíquicos que a reclusão pode causar em crianças. Externo à literatura, a obra demonstra a realidade vivida no período pandêmico, em que os párvulos, devido a necessidade do momento, precisam permanecer confinados em casa, o que acarreta uma série de consequências, como estigmas permanentes em sua psique  e a perda de importantes momentos de construção social.

Em primeira análise, de acordo com a teoria psicanalítica do médico Sigmund Freud, durante a infância o cérebro humano, se impactado por estresses severos, pode desenvolver traumas permanentes. Nesse sentido, a parte mais jovem da população, ao presenciar continuamente as incertezas e o pânico causados pelo coronavírus, sente-se insegura, ao mesmo tempo que não pode sair de sua própria residência. Dessa maneira, a mente juvenil acaba por ter emoções e sensações as quais ainda não estava pronta para sentir, o que a faz desenvolver problemas emocionais de maneira prematura. Por conseguinte, ao não poder receber atendimento especializado efetivo devido às restrições sanitárias, esses indivíduos não conseguem tratar as chagas psíquicas em seu princípio, o que pode, infelizmente, tornar-se uma problemática para toda a vida.

Concomitante a isso, a ausência de interação real por parte das crianças é outra questão em evidência. Nessa lógica, de acordo com o sociólogo Émile Durkheim, o contato com outros indivíduos e grupos é essencial para a formação plena de uma pessoa, no que o autor denomina como socialização secundária. Dessa forma, a geração pandêmica, devido a escassa convivência presencial, não consegue definir plenamente seus gostos e costumes, o que os impede de descobrir novas formas de lazer e diversão. Assim, o desgaste mental, corroborado pelas adversidades supracitadas, acaba por produzir uma geração mais ansiosa, e, tristemente, fechada em bolhas sociais.

Faz-se necessária, destarte, a remediação urgente desse estado crítico. Sob essa óptica,  cabe às famílias procurar estabelecer um diálogo aberto, em que os pais procurem ouvir e compreender seus filhos, por meio de conversas francas e, se necessário, ajuda profissional. É dever das escolas, também, estimular, por meio de debates e apresentações, formas de diálogo entre os alunos, tanto virtual quanto pessoalmente, para que possam aprender e ensinar uns aos outros. Ambas as ações devem ser tomadas para que a juventude se sinta mais segura e assistida, e, enfim, o país passe por esse período turbulento sem afetar severamente as gerações futuras.