Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 27/05/2020
No curta “O que você está pensando?”, Jackson vive uma vida de mentira nas redes sociais a partir de fotos e vídeos manipulados para forjar momentos que não viveu. Tal ação reflete a falta de autoconhecimento do personagem, uma vez que ele faz isso para conseguir a aprovação da sociedade e se encaixar no modelo de vida perfeita daquela geração. Fora da ficção, não é difícil encontrar pessoas que façam o mesmo, posto que, nos dias atuais, apenas são postadas fotos de momentos felizes ou que transmitam certo status. A partir desse contexto, é válido discutir quais são os efeitos da falta de autoconhecimento na era digital.
É importante, de início, pontuar que a falta de autoconhecimento pode levar a transtornos psicológicos graves em decorrência do uso das novas tecnologias. Para Ana Ruffo, do Núcleo de Psicologia e Informática da Universidade de São Paulo, a ascensão da necessidade de aprovação por outrem, dada a partir do engajamento do perfil, vem do não conhecimento de si mesmo. Tal engajamento seria medido pelos “likes”, visto que, quanto mais curtidas, mais aceito e bem visto na sociedade o indivíduo seria, na teoria. Essa necessidade de aceitação, na prática, pode gerar transtornos como ansiedade, depressão e solidão, caso o usuário não atinja a meta de curtidas para se considerar aceito.
Faz-se necessário abordar, ainda, outro efeito da falta de autoconhecimento: o consumo exacerbado. Segundo um estudo realizado pela Universidade de Montreal, o homem do século 21 consome a marca e não mais o produto ou serviço, devido à mensagem que a posse de algo com uma determinada logomarca pode passar. Dessa forma, consome-se apenas para ter e não por precisar. Essa ação se dá, principalmente, pela falta de conhecimento de si mesmo, pois ter claro quais são os próprios valores e reais interesses evitaria o consumo desnecessário e pode prevenir problemas financeiros.
Fica evidente, portanto, a necessidade de medidas que minimizem os efeitos da falta de autoconhecimento na era digital. Por isso, a mídia socialmente engajada, pela proximidade com a população, em parceria com a Sociedade Brasileira de Psicologia, deve esclarecer a importância do autoconhecimento para o uso saudável das tecnologias na era digital. Tal ação se dará por meio de campanhas publicitárias e “lives” em redes sociais, nas quais psicólogos abordarão o assunto visando, então, o uso saudável das tecnologias. O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, por sua vez, deve fiscalizar e punir as empresas que se utilizarem de propagandas com alto teor apelativo e que possam se aproveitar da falta de autoconhecimento das pessoas para lucrar. Dessa forma, os efeitos da falta de conhecimento de si na era digital serão diminuídos e a sociedade conseguirá lidar melhor com as tecnologias.