Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 26/05/2020
Em uma de suas crônicas, Heitor Cony tratava a internet como um meio pelo qual se chega, mas sem a capacidade de apontar esse trajeto. Todavia, diferentemente do afirmado pelo autor, devido à mercantilização e à falta de autonomia individual, as empresas passaram a direcionar os desejos e as opiniões dos internautas. Nesse contexto, portanto, é válido analisar a manipulação e o aumento de transtornos psicológicos como efeitos da falta de autoconhecimento na era digital.
A priori, a pouca reflexão individual acerca dos objetivos e necessidades próprios facilita a manipulação pela propaganda, o que é ainda mais visível na WEB. Isso ocorre porque a base do sistema capitalista é transformar todas as esferas da vida em possibilidades de lucro, dessa forma, o marketing é cuidadosamente elaborado a fim de atingir a parte menos racional do indivíduo. Tal realidade se agrava devido ao contato integral da pessoa com o meio digital, no qual as corporações utilizam algorítmos para mapear a personalidade a partir do comportamento online do usuário, individualizando os anúncios. Em consonância com isso, o sociólogo Milton Santos afirmava que as empresas hegemônicas criam seu consumidor antes mesmo de criar o produto, isto é, elas impõe, sutilmente, falsas necessidades aos potenciais consumidores. Logo, é de extrema importância o autoconhecimento capaz de limitar essa manipulação das pessoas pelo marketing digital.
Em segundo lugar, outro efeito do pouco autoconhecimento na modernidade é o aumento de transtornos psicossomáticos. Essa realidade advém da crise identitária gerada por um vazio pessoal, o qual, muitas vezes, não é percebido e acaba se manifestando em transtornos ou compulsões. Esses fator é acentuado na era digital devido à terceirização do pensamento, às relações frágeis e à solidão moderna. Tudo isso colabora com a desestruturação de um ser essencialmente social e o leva a permanecer em um mundo virtual, que nem sempre é verdadeiro. Prova disso é que houve aumento de 21% na depressão entre adolescentes brasileiros, segundo portal G1, o que é diretamente relacionado à grande presença dessa geração no meio digital em detrimento ao autoconhecimento.
Em suma, diante dos efeitos do pouco conhecimento interior na era digital, é importante que o Ministério da Educação faça campanhas de conscientização por meio de anúncios, vídeos curtos e cartazes que explicarão o perigo da manipulação pela propaganda e como limitar essa interferência, objetivando o estímulo à autonomia do cidadão. Somado a isso, as escolas devem implantar uma educação baseada na visão crítica de mundo, por intermédio do método freireano, que garantirá o processo educativo vinculado à interação com os desafios do autoconhecimento na era digital, a fim de orientar o educando no descobrimento de sua personalidade de maneira consciente e autônoma.