Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 06/05/2020
A cultura pop não é estranha a produções que pautem conceitos como a identidade e autoconhecimento. No livro Percy Jackson e o Ladrão de raios, que também tem versão cinematográfica, por exemplo, é narrada a epifania do protagonista ao descobrir que é um semideus e como, em razão dessa constatação, o mundo passa a ter mais significado aos olhos do personagem. Fora da ficção e dentro da modernidade virtual, o comprometimento da noção de um ‘’eu metafísico’’ mostra implicações em aspectos fundamentais tais como o livre arbítrio e a saúde mental.
Em primeiro plano, desconhecer uma identidade própria torna o indivíduo suscetível às convenções alheias. Segundo o filósofo alemão Nietzsche, a humanidade não detém livre arbítrio porque se encontra sempre presa a amarras como a religião ou a moralidade. No contexto contemporâneo, contudo, é a internet a responsável por esse processo de ‘‘projeção’’, uma vez que esse é, precisamente, o trabalho dos denominados ‘‘influencers’’, influenciadores digitais. O engajamento de internautas que repitam invariavelmente suas ações e propaguem inconscientemente seus pensamentos é monetizado por redes como o YouTube e o Instagram.
Outrossim, essa vulnerabilidade é ampliada, também, à integridade mental dos indivíduos em meio digital. De acordo com o jornal inglês The Econominist, a geração Z (grupo de indivíduos nascidos a partir de 1997) está preocupantemente mais ansiosa e depressiva. A pesquisa, realizada pelo Pew Research Center, relaciona esse declínio a fatores como o isolamento e desconforto provocado pelas mídias digitais, em que nem todos são o que aparentam ser e, assim como os influencers, tentam vender uma imagem vazia em troca de engajamento, de maneira a afetar a curiosidade pela jornada do autoconhecimento de que todos precisam para combater esse tipo de suscetibilidade.
Desse modo, o autoconhecimento é uma ferramental na preservação da liberdade e da saúde mental. Em razão disso, cabe ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTIC) assegurar a segurança dos internautas por meio do envio de cartas oficiais que informem aos principais influenciadores digitais brasileiros sua responsabilidade e influência sobre tantas pessoas. Além disso, é de responsabilidade da ANCINE (Agência Nacional do Cinema) produzir mais filmes e documentários que, assim como a cultura pop estrangeira, inspire jovens a buscar autoconhecimento e lutar contra a instabilização mental a que todos estão vulneráveis em meio digital de modo que, finalmente, o valor de uma consciência individual possa mitigar os efeitos negativos da influência virtual para com os brasileiros.