Os efeitos da falta do autoconhecimento na era digital
Enviada em 01/05/2020
Na distopia apresentada pelo autor inglês Aldous Huxley em “Admirável Mundo Novo”, os governantes usam a tecnologia para restringir a identidade de cada pessoa em prol de um forte controle social e da criação de uma cultura de consumismo exagerado. Embora não exista, na realidade, uma campanha tão ostensiva de manipulação, o livro deve servir de alerta sobre a importância do autoconhecimento em uma sociedade cada vez mais digital, na qual o fluxo rápido de informações pode representar um risco para a saúde mental do indivíduo e estimular o consumo irrefletido.
Primeiramente, é preciso considerar os riscos do uso irrefletido das mídias digitais para o bem-estar mental da população. De acordo com o neuropsiquiatra austríaco Viktor Frankl, a falta de sentido para a vida é uma das grandes ameaças para a saúde mental no mundo moderno, e, portanto, cabe a cada um buscar o autoconhecimento e encontrar esse sentido para si. No entanto, a satisfação momentânea oferecida pelas redes sociais desestimulam a reflexão pessoal e torna o indivíduo dependente do fluxo constante de informações proporcionado pela tecnologia, o qual o impede de olhar para si e encontrar o sentido para sua vida, comportamento que pode levar a problemas mais graves, como depressão.
Ademais, a falta de autoconhecimento torna o indivíduo despreparado para lidar com as estratégias modernas de publicidade. Com o uso de algoritmos de monitoramento de atividade online, empresas são capazes de apresentar propagandas personalizadas para cada público, o que permite explorar vulnerabilidades e criar necessidades artificiais sem que o receptor esteja ciente disso e levar ao consumismo. Assim, cada pessoa precisa ter boa consciência de sua identidade e verdadeiras necessidades de modo a evitar o consumo irrefletido, uma vez que, embora as empresas não tenham a capacidade de transformar o indivíduo para estimular esse fenômeno como na obra de Huxley, elas certamente são capazes de abusar de estratégias de marketing para esse fim.
Conclui-se, portanto, que a sociedade civil precisa estar mais ciente de sua identidade para evitar possíveis prejuízos do uso irrestrito de tecnologias. Para isso, o Ministério da Educação deve proporcionar educação digital nas escolas, de modo a instruir não só sobre o uso moderado das mídias digitais quanto sobre as estratégias de publicidade predatórias existentes nesses meios. Além disso, o MEC pode atuar em parceria com as redes de televisão ou influenciadores digitais e criar programas que incentivem a população a se autoconhecer e refletir mais sobre seus próprios gostos e pensamentos por meio de palestras de psicólogos ou indicação de livros. Assim, será possível ajudar a população a utilizar as mídias digitais de uma maneira, de fato, admirável.