Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 30/12/2021
A música “Gentileza” foi composta por Marisa Monte e retrata a angústia sentida pela cantora diante da impossibilidade de apreciar as manifestações artísticas do Profeta Gentileza, localizadas nos pilares do Viaduto do Caju, depois de os escritos terem sido apagados pelo serviço de limpeza da Prefeitura do Rio de Janeiro: “Apagaram tudo, pintaram tudo de cinza. Só ficou, no muro, tristeza e tinta fresca…”. Apesar de ter sido lançada no ano 2000, a música descreve um ato que tornou-se corriqueiro e posteriormente foi reproduzido, em 2017, durante o mandato de João Doria como prefeito, cuja ordem foi de apagar os grafites da Avenida 23 de Maio, em São Paulo. Desse modo, é possível observar que o preconceito e desvalorização ainda permeiam a arte urbana nos tempos atuais, pois o desconhecimento acerca da função política e social dessas manifestações impede os cidadãos de exergá-las de maneira valorosa e acarreta também uma diminuição cada vez mais expressiva dos espaços disponíveis para esse tipo de arte.
Em primeiro plano, o desconhecimento da população sobre a arte de rua figura como principal causa do problema apresentado. Segundo uma pesquisa realizada pelo site Agência Brasil, 58% da população brasileira considera a pichação e o grafite como uma ação de criminalidade. Logo, os artistas com esse perfil não têm oportunidade de mostrar a interpretação de suas obras com a finalidade crítica e reflexiva que carregam, pois são marginalizados pela sociedade.
Além disso, a ausência de espaços destinados à expressão da arte urbana segue como consequência da marginalização de seus autores. De acordo com a legislação brasileira, a pichação é considerada crime de vandalismo, isto é, sinônimo de destruição dos patrimônios públicos e privados, prevista pelo Código Penal. Entretanto, o poder público não disponibiliza locais que acolham os artistas urbanos para que possam dar vazão aos seus processos criativos.
Nesse sentido, os órgãos estaduais de governo deveriam criar um projeto cultural chamado “Consciência criativa”, por meio do qual propriedades públicas inativas seriam transformadas em oficinas de arte urbana voltadas à criação e exposição de práticas como grafite e pichação, a fim de estimular a liberdade dos artistas de rua e facilitar a interpretação dessas obras pelo público, que teria a possibilidade de entender sobre a finalidade de cada criação. Ademais, as oficinas ainda divulgariam esses trabalhos aos indivíduos interessados em reproduzí-los nas fachadas de seus prédios, comércios e casas. Dessa forma, o Brasil caminhará para um futuro mais expressivo, integrado e criativo.