Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil
Enviada em 07/03/2021
A música “Gentileza”, da cantora Marisa Monte, apresenta a concepção de que muros cobertos de cinza trazem tristeza. Infelizmente, no Brasil contemporâneo, os indivíduos preferem essa configuração na paisagem cultural do que as pinturas realizadas na cidade. Nessa perspectiva, afere-se que, embora a arte urbana seja de suma importância para a construção do cidadão brasileiro, ainda enfrenta muitos desafios, principalmente no que tange à sua valorização, devido à estigmatização de sua origem. Logo, é mister resolver essa problemática.
Primordialmente, é importante analisar que a arte urbana representa a voz de pessoas marginalizadas sistematicamente. Nessa perspectiva, cabe ressaltar que esta se manifesta como uma forma de expressão de indivíduos silenciados, de modo que, na maioria das vezes, as pinturas trazem consigo uma crítica social e política, de sorte a promover a reflexão de grupos socialmente privilegiados quando em contato com as obras. Como exemplo, pode-se citar o artista de rua britânico Banksy, o qual utiliza sua arte como forma de conscientização popular ao abordar temas como violência, amor, internet, entre outros. Sendo assim, percebe-se a substancialidade de intervenções artísticas no meio citadino para a construção de uma sociedade mais crítica e justa.
No entanto, a arte urbana ainda encontra muitos obstáculos para a sua valorização. Isso acontece, pois comumente esta vem de locais periféricos, que são vistos pela sociedade, nas palavras da escritora Carolina Maria de Jesus, como “quarto de despejo”. Assim, lapidou-se uma visão de que as múltiplas produções oriundas desses meios não são válidas como às realizadas pela classe dominante. Esse fenômeno foi teorizado pelo sociólogo Pierre Bordieu, como “capital cultural” e define que os recursos de poder se manifestam nos meios culturais, visto que os saberes reconhecidos são aqueles aceitos pela elite. Por conseguinte, há uma concepção elitista da arte, a qual se deve superar, já que esta apaga as diversas subjetividades de indivíduos subalternizados, além da pluralidade de visões de mundo.
Portanto, medidas são necessárias para romper com o paradigma entorno da arte urbana para concretizar sua valorização. Para tanto, as Escolas deverão promover a ampliação do conceito artístico, por meio da execução de exposições de artistas de rua, bem como incluirão em seu conteúdo programático o ensino de nomes famosos desse meio. Dessa maneira, fazer-se-á da arte uma expressão popular e não somente das camadas imperantes no país. Somente assim, será possível retirar a tinta cinza de nossos muros e conviver com a alegria das cores.