Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 01/03/2021

Em “Gentileza”, Marisa Monte canta a operação da prefeitura do Rio de Janeiro para apagar as pinturas urbanas, dentre elas, os escritos do Profeta Gentileza, sobrando assim, na voz da cantora, “tristeza e tinta fresca”. Apesar de narrar um fato específico, a canção mostra uma postura de desvalorização da arte urbana, tão comum nas grandes cidades e isso, por sua vez, acaba evidenciando o descaso do estatal e o padrão de consumo capitalista como principais desafios a essa forma artística.

A princípio, a matriz do problema é revelada ao analisar o desprezo do próprio Estado com essa manifestção artístico-urbana como notável agente de desvalorização. Esse descaso do poder público ocorre devido à uma infeliz tendência governamental em negligenciar as demandas periféricas, “calando as vozes” que anseiam por melhoria, sendo a arte urbana um importante instrumento de fala da população marginalizada, ela acaba tornando-se alvo. Esse panorama fica ainda mais evidente no esforço da prefeitura de São Paulo, em 2017, para apagar grafites da cidade, dentre eles, importantes nomes que contam a realidade das comunidades, como os artistas “Os Gêmeos”. Desse modo, fica claro o descaso governamental com essas expressões artísticas.

Além disso, o problema é agravado ainda mais ao analisar, também, o padrão de consumo capitalista como grande desafio a ser superado. Essa questão acontece devido ao padrão burguês que, historicamente, marca presença na sociedade. Para essa, a valorização de expressões artísticas é baseada no padrão de consumo de uma minoria detentora do capital, sendo assim, a padronagem do “belo” e ditada por quem detém o poder. Dessa forma, arquétipos eruditos tendem a ser mais valorizados em detrimento de expressões artísticas populares por serem um exemplar de consumo da elite burgesa, tal como explica o filósofo Karl Marx com o materialismo histórico que propõe a imposição de padrões pela minoria detentora do capital. É por isso que se paga para frequentar exposições de grafiti em galerias de arte noutros países e se criminaliza quando são realizadas nas ruas.

Portanto, é preciso acabar com os desafios  para a valorização da arte urbana no Brasil. Desse modo, o Estado deve formalizar essas manisfetações urbanas como arte a ser consumida por meio da construção de galerias públicas de arte urbana dando oportunidade aos grafiteiros de exporem seus trabalhos, além de regularizar a atuação desses ao reservar trechos da cidade a serem decorados com grafiti para aproximar o público dessas formas artísticas e fornecer apoio aos artistas de rua. Só assim será possivel apagar o “cinza” dos muros com a cor da “gentileza”.