Os desafios para a valorização da arte urbana no Brasil

Enviada em 27/02/2021

O grafite, forma de arte originada da palavra italiana “graffiti”, que significa “escrita feita com carvão”, se refere ao ato de realizar pinturas em muros, com o objetivo de causar um certo impacto social através da catarse, um processo de identificação com a arte que foi descrito na obra “Poética”, do filósofo grego Aristóteles. Porém, essa manifestação artística ainda é muito desvalorizada em comparação aos métodos de criação estrangeiros, que acabam ofuscando a beleza da arte brasileira.

Embora seja uma manifestação cultural bastante presente na perspectiva urbana, o grafite foi associado ao vandalismo, sendo considerado um crime ambiental em até o ano de 2011. Segundo Alexandre Barbosa Pereira, sociólogo e pesquisador de Antropologia Urbana da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), o processo de aceitação dessa forma de arte começou como uma maneira de combater a pichação, já que a dissociação das duas práticas foi essencial para o entendimento dos objetivos das mesmas. Enquanto o grafite busca valorizar a expressão artística do país, a pichação tem como foco a degradação do ambiente, como forma de protesto e demonstração de rebeldia.

O dramaturgo e escritor brasileiro Nelson Rodrigues criou o termo “complexo de vira-lata” para se referir ao sentimento de inferioridade que uma grande parte da população brasileira sente ao observar aspectos de outros países, provocando a supervalorização de outras culturas, bem como a desvalorização da nossa própria. Esse pensamento é fortalecido pela falta de investimentos na educação acerca da história da cultura do Brasil, que causa a escassez da busca por conhecimento das artes nacionais e o consequente desinteresse pelas criações brasileiras. Como um ótimo exemplo disso, para muitas pessoas, as técnicas de grafite norte-americanas são pura arte, enquanto as brasileiras não passam de mais uma maneira de vandalizar a paisagem.

Em vista disso, torna-se evidente a necessidade de criação de campanhas que valorizem a cultura nacional por parte do governo e das instituições escolares, com o objetivo de estimular o contato direto dos jovens com a arte brasileira de maneira precoce. Além disso, também é preciso que os meios midiáticos divulguem essas campanhas, garantindo a capilarização da admiração pelas manifestações culturais do Brasil. Desse modo, poderá ser possível o fim do tão conhecido “viralatismo” com a promoção da cultura brasileira aos olhos da própria população e, em sequência, do resto do mundo.