Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil
Enviada em 07/10/2021
Na música “Triste, louca ou má”, a banda “Francisco, el hombre” versa: “Você é seu próprio lar”, uma máxima que exalta a capacidade de independência da mulher. Esse potencial referenciado na letra da canção necessita de apoio social para ser sustentado e, nesse contexto, os desafios da pobreza menstrual devem ser combatidos no Brasil. Nessa visão, impasses como a segregação social e o estigma associado à menstruação necessitam de soluções, a fim de minimizar essa pauta.
Em primeira análise, o escritor brasileiro Aluísio de Azevedo denunciava, já no século XIX, em sua obra “O cortiço”, a forte segregação social, fator presente na sociedade brasileira até a atualidade. Sob tal ótica, é possibilitada, no país, uma má distribuição de renda que, segundo o Índice de GINI, coloca o Brasil entre os 10 países mais desiguais do mundo. Essa disparidade permite que uma parcela da população não tenha boas condições financeiras e, nesse contexto, o acesso de muitas mulheres a itens de higiene menstrual torna-se restrito, seja pelo alto custo ou pela falta de oferta de absorventes no sistema de saúde. Nesse sentido, segundo pesquisa feita em 2018 pela marca Sempre Livre, 26% das meninas com idades entre 15 e 17 anos não têm acesso aos produtos necessários para lidar com o período de menstruação de forma saudável e confortável, o que retarda o desenvolvimento.
Outrossim, historicamente, há um estigma associado à menstruação, o qual é um ponto responsável por gerar, nos cidadãos, preconceitos machistas de nojo e aversão a um processo biológico e natural. Marie Currie, grande cientista polonesa laureada com os Prêmios Nobel de Química e Física, defendia que, na vida, não há coisas a se temer, mas a se compreender. O exemplo de Marie não tem sido aplicado na sociedade brasileira, visto que o tabu mencionado dificulta o debate sobre a questão da menstruação. Dessa forma, a discussão sobre a pobreza menstrual é, concomitantemente, fragilizada, o que contraria a consideração da ONU (Organização das Nações Unidas) que, em 2014, afirmou que o acesso das mulheres à higiene menstrual é uma questão de saúde pública.
Destarte, é imprescindível que os desafios da pobreza menstrual, advindos da segregação social e de estigmas associados a processos biológicos, necessitam de soluções plausíveis. Portanto, cabe ao Ministério da Saúde, órgão responsável pelas diretrizes de bem-estar público no Brasil, por intermédio do SUS (Sistema Único de Saúde) e das secretarias estaduais e municipais de saúde, possibilitar a entrega gratuita de absorventes às mulheres que necessitem, bem como desenvolver palestras para todos sobre a temática da menstruação, com orientações de profissionais competentes, que possam desmistificar essa pauta. Quiçá, tais medidas minimizarão a pobreza menstrual na sociedade brasileira, de modo a garantir que o potencial descrito em “Triste, louca ou má” seja sustentado.