Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil
Enviada em 06/10/2021
Ao versar “Você é seu próprio lar”, a banda Francisco, el hombre exalta, em sua canção “Triste, louca ou má”, a capacidade de independência da mulher. No entanto, para que esse potencial seja mantido e preservado de forma integral, lacunas como a questão da pobreza menstrual devem ser discutidas. Nessa perspectiva, desafios como a segregação social e o estigma associado à menstruação necessitam de soluções, a fim de combater, no Brasil, o problema pautado.
Em primeira análise, o escritor brasileiro Aluísio de Azevedo denunciava, já no século XIX, em sua obra “O cortiço”, a forte segregação social, presente na sociedade brasileira até a atualidade. Sob tal ótica, é possibilitada, no país, uma má distribuição de renda que, segundo o Índice de GINI, coloca o Brasil entre os dez países mais desiguais do mundo. Nesse contexto, mulheres são afetadas, também, no que concerne ao âmbito financeiro, de modo a dificultar seu acesso a itens de higiene menstrual, tais como absorventes, materiais não ofertados pelo sistema de saúde. Isso possibilita, de acordo com pesquisa feita em 2018 pela marca Sempre Livre, que 26% das meninas com idades entre 15 e 17 anos não tenham contato com os recursos necessários para lidar, de forma saudável e confortável, com o período da menstruação, o que retarda o desenvolvimento.
Outrossim, historicamente, há um estigma associado à menstruação, o qual é um fator responsável por gerar, nos cidadãos, preconceitos machistas de nojo e aversão a um processo biológico e natural. Marie Currie, grande cientista polonesa, laureada com os Prêmios Nobel de Química e Física, defendia que, na vida, não há coisas a se temer, mas a se compreender. O pensamento de Marie não tem sido aplicado na sociedade brasileira, visto que o tabu mencionado dificulta o debate sobre a questão da menstruação. Dessa forma, a discussão sobre a pobreza menstrual é, concomitantemente, fragilizada, o que contraria a consideração da ONU-Organização das Nações Unidas- que, em 2014, afirmou que o acesso das mulheres à higiene menstrual é uma questão de saúde pública.
Destarte, é imprescindível que os desafios da pobreza menstrual, advindos da segregação social e de estigmas associados a processos biológicos, necessitam de soluções plausíveis. Portanto, cabe ao Ministério da Saúde, órgão responsável pelas diretrizes de bem-estar público no Brasil, por intermédio do SUS-Sistema Único de Saúde- e das secretarias estaduais e municipais, possibilitar a entrega gratuita de absorventes às mulheres que necessitem, bem como desenvolver palestras para todos sobre a temática da menstruação, com orientações de profissionais competentes, que possam desmistificar essa pauta. Quiçá, tais medidas instigarão que o “lar”, descrito no verso de “Triste, louca ou má” seja cuidado como merece, de modo a garantir os direitos femininos e o desenvolvimento.