Os desafios no combate à pobreza menstrual no Brasil
Enviada em 01/09/2021
O escritor brasileiro Gilberto Dimenstein, em seu livro “Cidadão de Papel”, questiona a restrição à teoria dos direitos básicos do cidadão, sem que haja a plena efetivação desses princípios. Um exemplo disso é percebido na existência da pobreza menstrual, em que mulheres de todas as idades têm seus direitos à saúde infringidos, seja no aspecto físico, seja no aspecto emocional que é abalado. Portanto, tanto a partir do estigma social relacionado à menstruação, quanto pela presença majoritariamente masculina na política brasileira essa situação apresenta fortes entraves em sua resolução.
Em primeiro lugar, o pudor social em lidar com a menstruação evidencia uma herança histórica que reforça a estigmatização desse tema. Desde muito novas, as mulheres acostumam-se a lidar sozinhas com as dúvidas acerca do corpo e da própria fisiologia. O agravante, entretanto, ocorre ao somar a falta de acesso a itens básicos de higiene à visão retrógrada da mulher menstruada como um ser sujo e incapacitante. Dessa forma, um acontecimento natural acaba por prejudicar o desempenho acadêmico e a qualidade de vida essas cidadãs, uma vez que elas sofrem o receio de pedirem ajuda e de se mostrarem vulneráveis diante de uma sociedade machista e julgadora.
Sob outra ótica, a constituição majoritariamente masculina da política brasileira torna comum a negligência de pautas essenciais ao público feminino. Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, em sua obra “A Dominação Masculina”, a relação social entre os sexos configura uma violência simbólica implícita sobre as mulheres, o que torna a problemática mais difícil de ser identificada e combatida. Assim, evidencia-se a seriedade desse ponto quando as dificuldades que mulheres de baixa renda enfrentam no ciclo menstrual não parecem ser suficientes para que os políticos cedam às pressões populares ou trabalhem em prol do bem-estar geral.
Infere-se, com isso, que as escolas devem fornecer, ao menos uma vez por mês, rodas de debate acerca do tabu da menstruação, com a participação de ginecologistas e psquiatras, responsáveis por instruir não só as meninas nos cuidados pessoais e íntimos, mas também estimulando nos meninos o íntegro respeito às mulheres, com o objetivo de romper gradativamente o estigma social sobre esse tema. Ademais, deve haver uma união popular para eleger mulheres, como forma de, a partir da representatividade, efetivar os direitos femininos e construir uma relação justa entre os gêneros no âmbito político. Assim, a mudança dessa realidade terá sido iniciada.