Os desafios no combate à fuga de cérebros no Brasil

Enviada em 31/08/2020

É comum, no Brasil, a pergunta: “você trabalha ou só estuda?”, feita para profissionais da pesquisa. Esse fenômeno é um indício de que grande parte da população considera fazer ciência um luxo, talvez até mesmo uma futilidade. Tal lógica se reflete na esfera política, que tende a não valorizar o conhecimento científico. Entretanto, a crescente fuga de cérebros é danosa para as futuras gerações de brasileiros, pois além de seus efeitos destruidores na produção científica e soberania nacional, o desenvolvimento econômico também tende a ser afetado por esse processo.

Em primeiro lugar, é importante destacar que existe relação direta entre subdesenvolvimento e dependência tecnológica. O Brasil é um exemplo disso e, historicamente, sempre foi um exportador de matérias primas, o que é péssimo para as receitas do país. Tal situação começou a mudar no início do século XXI, com o aumento do investimento em universidades públicas, aquelas que fomentam a pesquisa. São frutos desse momento o destaque que empresas nacionais, como a Embraer e a Petrobrás, passaram a ter no cenário internacional de então. Tais iniciativas, ainda que incipientes, colocaram o Brasil no centro das atenções do mundo, e pela primeira vez o país passou a ser associado não apenas ao futebol, mas ao progresso científico e desenvolvimento humano.

Porém, a crise econômica de meados da década provocou mudanças nesse quadro. Houve diminuição do mercado de trabalho, e a perda nas receitas levou ao congelamento do investimento em ciência e pesquisa. Para piorar a situação, a conjuntura política mudou, e o poder executivo passou a ser dominado por líderes e partidos que não têm a educação e a soberania nacional como suas pautas. Tais fatores são as principais causas para a debandada de pessoas com alto nível de escolaridade registrada nos últimos anos. Entretanto, essa tendência precisa ser freada, visto que é a ciência o caminho para a resolução dos principais problemas da nação. Além disso, uma população mais escolarizada tende a gerar, a longo prazo, crescimento econômico, visto que é um terreno fértil para empresas de tecnologia de ponta, que exigem pessoal qualificado.

Portanto, o governo federal deveria incrementar o financiamento de pesquisas e a formação de mestres e doutores. Faria isso via CAPES e CNPQ, com ampliação da quantidade e nos valores de bolsas para doutoramento, além de incentivo para criação de novas linhas de pesquisas. Por fim, a contratação de pesquisadores por empresas públicas como a EMBRAPA, por exemplo, deveria ser ampliada, pois isso geraria maior competição e estimularia o setor privado a também fazê-lo, abrindo postos de trabalho e agregando valor de mercado à produção nacional. Em conjunto, tais medidas aumentariam o número de doutores do país, mas também sua permanência e aproveitamento.