Os desafios no combate à fuga de cérebros no Brasil
Enviada em 10/06/2020
Em “As veias abertas da América Latina”, o romancista Eduardo Galeano argumenta que “a chuva que irriga os centros do poder afoga seus vastos subúrbios”, ou seja, a riqueza material que hoje constitui o cone norte do globo provém do cone sul, e é em grande nível a causa da pobreza do terceiro mundo. A realidade retratada no livro de Galeano se demonstra real não só na questão material, mas também no chamado “capital humano”, sendo a “fuga de cérebros” atualmente um problema sério para lidar na conjuntura nacional, vide que entre 2011 e 2017, aumentou em 13.066 o número de brasileiros profissionais qualificados buscando oportunidades nos EUA, segundo Fernando Nogueira Costa. Isso se deve a falta de um projeto desenvolvimentista nacional e a chamada “complexo de vira lata”.
Em primeiro lugar, é necessário compreender como nos países ditos “em desenvolvimento” ou subdesenvolvidos não há um real plano de desenvolvimento. Segundo o economista André Gunder Frank, na economia mundial há uma relação de dependência entre os mercados, no qual se estabelece uma divisão internacional da produção. O terceiro mundo se especializa na produção de matéria prima, ou “commodities”, enquanto a produção de produtos de valor agregado é “responsabilidade” europeia e norte americana. Nesse contexto, o economista Ruy Marini argumenta que ocorre um “desenvolvimento do subdesenvolvimento”, ou seja, uma dependência cada vez maior dos centros econômicos globais e perda de autonomia financeira, que são pilares para a falta de investimento em educação e consequente fuga de cérebros no Brasil, vide que não se encontra horizontes de uma evolução.
Em segundo lugar, é crucial a compreensão do chamado “complexo de vira lata”, cunhado assim pelo escritor brasileiro Nelson Rodrigues. Segundo o mesmo, o brasileiro seria uma espécie de “narciso às avessas”, que despreza a própria imagem, sempre presumindo o pior de si mesmo, tal qual seus compatriotas, ao mesmo que passo que glorifica e exalta tudo que vem do exterior. Assim, a fuga para o exterior sempre carrega consigo, nessa ótica, uma “evolução” implícita no ato.
Portanto, para solucionar os desafios no combate à fuga de cérebros no Brasil, dá-se como imperativo um plano nacional de desenvolvimento independente, projetado pelo Ministério da Fazenda, focando em uma reindustrialização visando a produção de valor agregado e desenvolvendo uma real indústria sustentável nacional. Junto a tal projeto, é necessário um projeto de investimento massivo, guiado pelas secretarias estaduais de educação junto ao Ministério de Educação, em uma educação freiriana que restabeleça um diálogo entre o colégio e a vida profissional, capacitando cada vez mais os jovens e desmistificando o mito do “brasileiro inerentemente ruim”, graças ao estabelecimento de um horizonte de evolução. Assim, a chuva do futuro poderá nos irrigar, ao invés de nos afogar como antes.