Os desafios no combate à fuga de cérebros no Brasil

Enviada em 25/05/2020

Em sua obra “Raízes do Brasil”, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda defende que, em virtude da forma como o país fora colonizado, sua organização e infraestrutura se tornaram precárias. Fora da teoria, no que tange ao desenvolvimento científico, a nação se encontra em desalento, o que incentiva a emigração em massa de mão de obra qualificada, problema esse causado por uma gama de motivos, dentre eles a tradição histórica política aristocrática e seu consequente desamparo governamental.

A priori, todos os processos de transição governamental no Brasil até as últimas décadas do século XX foram executadas pela elite nacional, seja ela econômica ou administrativa, desde a independência proclamada pelo próprio príncipe regente até o golpe militar de 1964 pelos oficiais de alto escalão. Devido a isso, não houve nesse período uma participação popular efetiva, seja na elaboração das leis ou na gerência de recursos públicos, o que gerou uma propensão natural à propagação dos privilégios de um seleto grupo em detrimento da qualidade de vida da sociedade como um todo, fato esse demonstrado pela discrepância entre o salário mínimo e o teto fornecido aos políticos, fora todos os seus privilégios.

Concomitante a isso, em seu livro “A República”, o filósofo Platão abomina qualquer tipo de inovação, pois acredita que mudanças de qualquer espécie poderiam afetar o equilíbrio de um Estado. De maneira análoga, essa foi a situação gerada pelos fatores históricos supracitados, que infelizmente criaram um sistema legal ainda presente que dificulta, e em determinados casos até impossibilita, a gestão de capital para o meio tecnológico para que exista o manutenir de um establishment centrado no funcionarismo público e, por conseguinte, os cientistas e pesquisadores, frustrados, acabam por emigrar com o intuito de manterem vivos seus projetos, em uma proporção cada vez maior, como demonstrado na pesquisa feita pela Receita Federal e pela JBJ Partners, a qual demonstra que, no período de 2011 a 2017, o número de pessoas com ensino superior que saíram do Brasil cresceu cerca de 150%.

Faz-se necessário, dessarte, a reversão desse estado crítico em que o país se encontra. Nessa lógica, cabe ao Poder Legislativo elaborar novas leis que aumentem os investimentos em universidades e centros de pesquisas, obtidos pela redução de privilégios de cargos estatais, e que reduzam os impostos vinculados às empresas de produção de conhecimento, além de fornecer uma bolsa de incentivo para brasileiros que estavam em universidades nacionais e as abandonaram, todas elas feitas com o intuito de atrair não apenas os pesquisadores já da pátria, mas novas mentes de outras regiões e, assim, a herança histórica mencionada por Holanda esteja mais próxima do fim.