Os desafios no combate à fuga de cérebros no Brasil

Enviada em 23/05/2020

No livro “Admirável mundo novo”, o escritor Aldous Huxley retrata uma sociedade na qual seus integrantes são destituídos de uma consciência crítica, impendido as percepções acerca dos problemas sociais que os circundam. Contudo, essa alienação não se restringe à obra distópica, já que, no Brasil, alguns setores políticos e sociais não têm compreendido efetivamente a gravidade, por exemplo, da fuga de cérebros, dificultando a sua resolução. Diante disso, cabe analisar essa questão no país.

De início, pontua-se que o Poder Público apresenta-se negligente ao não combater a fuga de cérebros. Isso porque existe uma deficiência no processo de investimento financeiro nas universidades públicas, uma vez faltam verbas para o financiamento de pesquisas, bem como para o fornecimento de bolsas de incentivo aos programas de pós-graduação. Constata-se, portanto, que o descaso com o ensino superior público fortalece, diretamente, o êxodo definitivo de cientistas brasileiros, comprometendo, com isso, o desenvolvimento nacional. Vê-se, então, que o Estado não tem assegurado o bem-estar de toda a coletividade, demonstrando um desrespeito aos princípios previstos na Constituição Federal.

Ademais, nota-se que parte da sociedade não tem questionado a fuga de cérebros, o que denota uma banalização do mal. Confirma-se isso pela postura resignada de algumas pessoas diante da falta de assistência governamental, visto que falta oferecer, aos pesquisadores, condições adequadas de inserção no mercado de trabalho e, também, de remuneração, o que tem contribuído para a saída definitiva destes em busca de melhores oportunidades de vida. A naturalização dessa problemática pode ser explicada a partir dos estudos da filósofa Hannah Arendt, posto que, segundo ela, a massificação social é responsável por comprometer o senso crítico do indivíduo, o qual passa a aceitar quadros negativos de maneira inerte.

Infere-se, portanto, que a fuga de cérebros deve ser combatida. Logo, é preciso que o Estado, mediante atuações do Poder Executivo, promova um maior repasse de verbas às universidades públicas, priorizando o financiamento de pesquisas e o oferecimento de bolsas para programas de pós-graduação, a fim de proporcionar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento científico. Também, é fundamental que haja a atuação dos veículos midiáticos, por meio da realização de reportagens que exponham a relação entre a desvalorização da ciência como profissão e o êxodo definitivo de pesquisadores brasileiros, para desenvolver o senso crítico das pessoas e mobilizá-las a lutarem por uma maior assistência governamental a esses profissionais, visando ao oferecimento de melhores oportunidades de inserção no mercado de trabalho. Dessa forma, a alienação diante de impasses poderia se restringir à obra de Huxley.