Os desafios no combate à fuga de cérebros no Brasil

Enviada em 15/05/2020

No livro “Morte e Vida Severina”, a personagem principal, Severino, parte do sertão nordestino em direção ao litoral em busca de melhores condições de vida. Fora do livro de João Cabral, a configuração do hodierno é fundamentalmente a mesma: brasileiros migram para lugares que proporcionam perspectivas mais otimistas. No panorama contemporâneo, os emigrantes são profissionais qualificados que deixam o país, gerando a chamada “fuga de cérebros”. Nesse viés, convém analisar a intensidade dessa “fuga”, a sua causa e como ela afeta o país de emigração.

O número de emigrantes brasileiros cresce a cada ano e, tendo em vista o ímpeto da população, tende a continuar a crescer. Consoante a dados da Receita Federal, pelo menos 22.400 pessoas declararam saída definitiva do Brasil em 2018, o que contabiliza um crescimento de 184% em relação a 2011. Ademais, dos brasileiros ainda no país, 45% deseja emigrar, segundo a Datafolha. Dentre esses possíveis “fugitivos”, a maioria são pessoas com alto nível de escolaridade e, de acordo com a BBC News Brasil, cientistas.

Os severinos contemporâneos tendem a ser acadêmicos devido ao desestímulo interno e a atrativos externos quanto à pesquisa científica. No Brasil, tanto a atuação quanto a graduação em áreas ligadas à academia sofrem de pobre perspectiva: apenas 18% dos pesquisadores brasileiros estão alocados em empresas e, somente no ano passado, o Ministério da Educação (MEC) cortou R$ 1,7 bilhão das verbas das universidades públicas. Em contraste, países nas frentes da inovação científica como o Canadá, a Suíça e Hong Kong, estimulam a imigração e a estadia de profissionais capacitados.

Como consequência da diminuição de mão de obra altamente escolarizada, o Brasil perde em desenvolvimento científico e em ganhos econômicos. A tecnologia, que, segundo Steve Jobs, move o mundo, possibilita inovações em diversas áreas: social, da saúde, industrial, etc., a maioria das quais traz desenvolvimento econômico ao país. Um exemplo claro é a possibilidade de desenvolver testes e remédios inéditos em casos de epidemias e pandemias: esses produtos não só diminuem o custo -não seria preciso comprá-los-, expandem a disponibilidade, como também são rentáveis.

Diante do cenário atual, medidas são necessárias para tornar o Brasil mais atrativo aos seus próprios “cérebros”. o MEC e o Ministério da Economia devem priorizar o investimento em educação e pesquisa por meio de projetos de lei que serão entregues à Câmara dos Deputados. Por intermédio dessas leis, deve-se certificar que os investimentos na educação aumentem 5% ao ano, o que, espera-se, acrescerá vagas de cursos e de emprego relacionados à pesquisa e, em última instância, desenvolverá a economia do país.