Os desafios no combate à ansiedade na sociedade contemporânea
Enviada em 16/09/2020
Na obra “Ensaio sobre a Cegueira”, o escritor português José Saramago descreve uma epidemia de cegueira que, ao se instaurar, intensifica vertiginosamente as adversidades sociais. De maneira similar ao romance, uma cegueira moral acomete o corpo social e impede que se enxergue a gravidade da ansiedade atualmente. Assim, deve-se analisar o papel da conjuntura econômica e social de intensa cobrança por desempenho, bem como da normalização do controle da doença por remédios na manutenção desse cenário deletério à comunidade.
Primeiramente, a pressão que a sociedade exerce nas pessoas, efetivada na exigência de sucesso em todos os setores de sua vida, gera consequências prejudiciais nos indivíduos que não alcançam tal perfeição. O filósofo Byung-Chul Han define essa conjuntura como a “Sociedade do Desempenho”, na qual se faz imprescindível alcançar determinado prestígio social, ainda que às custas de jornadas extenuantes de trabalho, por exemplo. Como consequência disso, preocupações com a saúde mental são delegadas a posições secundárias, o que culmina em tornar os cidadãos mais suscetíveis à ansiedade e a outros transtornos psíquicos.
Outrossim, é importante ponderar o bloqueio que a naturalização do uso excessivo de medicamentos exerce no enfrentamento do problema em questão. Segundo Hannah Arendt, em sociedades cujos princípios não são devidamente questionados pelos indivíduos que a compõem, ações prejudiciais a certos grupos tendem a se tornar banais. Sob esse espectro fundamentado pela filósofa alemã, depreende-se que a ausência generalizada de debates acerca de tal uso desenfreado de produtos químicos catalisa um processo no qual essa prática deixa de ser vista, infelizmente, como deletéria à saúde. Por conseguinte, o cenário supracitado tende a permanecer no tecido social, em virtude de não ser combatido.
Portanto, é imprescindível que o combate à ansiedade seja devidamente realizado na sociedade contemporânea. Para isso, o Ministério da Saúde deve instituir centros de exames psicológicos que funcionarão em tempo integral, para que pessoas com altos níveis de ocupação diária possam ser atendidas nos horários em que estiverem disponíveis. Esses centros contarão com profissionais adequadamente preparados para o exercício da medicina que encaminharão os pacientes a seus específicos tratamentos. Ademais, a mídia deve cumprir seu papel de propulsora de informações e fornecer subsídios pertinentes para debates entre a população sobre a atmosfera que envolve a ansiedade e os riscos do uso indevido de remédios para seu controle. Assim, uma sociedade cujos princípios se afastarão de comparações com a obra de Saramago será alcançada.