Os desafios do combate ao trabalho escravo no século XXI

Enviada em 22/09/2021

O Brasil, paradoxalmente, possui uma história de lutas e de superação. Se, outrora, houve revoluções em prol do avanço, hoje, as condições insalubres de trabalho, caracterizando um novo formato escravista, contrariam a história e comprovam a crítica de Leslie Bethell, na obra “Brasil: fardo do passado, promessa do futuro”, sobre como o país se tornou desmazelado nas questões sociais. Nesse viés, a escravidão contemporânea é um fato que explica essa nação tão contraditória e incerta.

Nessa perspectiva, mesmo após um século da abolição do sistema escravocrata, esse método abusivo de trabalho ainda é encontrado no Brasil. Nomeada escravidão moderna, essa definição se enquadra em algumas práticas atuais, como o trabalho forçado e o exaustivo, situações em que as pessoas são mantidas em um local afastado, sem liberdade de locomoção, e sendo obrigadas a trabalharem por longos períodos sem descanso. Dessa maneira, os contratantes apresentam um lucro maior, já que obrigam os trabalhadores a realizarem longas jornadas de serviço e não oferecem os cuidados básicos aos mesmos. Assim, comprovam-se as causas pelas quais a mão de obra escrava ainda é recorrente em território brasileiro, confirmando a visão de Tom Monteiro, uma vez que reafirma a tese de “Brasil: Um país de absurdos”.

Além disso, há casos em que os trabalhadores são enganados com promessas grandiosas sobre serviços que oferecem um bom salário e alojamento, mas, ao chegarem ao local, se deparam com outra realidade. Nessas situações ocorre, ainda, a retenção dos documentos da vítima e são feitas ameaças contra a sua vida e a de seus familiares, assunto discutido no 2° Simpósio sobre escravidão contemporânea. De fato, a problemática acerca da escravidão moderna é um desafio para o país, que ainda não aprendeu a analisar esse assunto com a gravidade necessária. Mas será esta a condição para o futuro? A negativa vem nas palavras de Clarice Lispector: “Porque há o direito ao grito”.

Fica evidente, que as condições insalubres de trabalho configuram-se como um problema na sociedade do Brasil. Logo, investimentos na compreensão social, por empresas proativas, são essenciais para o esclarecimento das massas sobre como tentar identificar propostas de emprego falsas, que tenham por objetivo a utilização de mão de obra escrava, mediante ações conativas, como projetos expositivos e palestras, a fim de que seja reduzida a quantidade de pessoas enganadas. Ademais, é necessário que o poder público intensifique as fiscalizações em território brasileiro, com o intuito de localizar lugares clandestinos de caráter escravista, para que ocorra a libertação de trabalhadores em condições que oferecem riscos à própria vida. Desse modo, o protagonismo social produz ideias capazes de transformar a sociedade: eis o direito ao grito, proclamado por Lispector.