Os desafios da mobilidade urbana no Brasil

Enviada em 28/10/2017

A Constituição Brasileira de 1988 prevê a garantia do direito à cidade, assim como do de ir e vir, a todos os cidadãos. Entretanto, por mais que existam essas premissas legais, as complicações no campo da mobilidade urbana tornam-as inexequíveis - seja pelos grandes congestionamentos no espaço citadino, seja pela deterioração ambiental ocasionada pela emissão de poluentes pelos automóveis. Logo, é preciso modificar esse cenário, para que tais prerrogativas da Carta Magna sejam asseguradas.

Em primeiro lugar, deve-se analisar as raízes históricas dessa problemática social. No governo nacional-desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek, na segunda metade do século XX, presenciaram-se modernizações na esfera urbana, sobretudo no projeto de alavancar o setor rodoviário no país. A partir disso, teve-se um aumento exponencial de automóveis, quer pelo crescimento do número de rodovias, quer pela existência de um sistema credenciário que viabilizava a aquisição de tais veículos. Neste contexto, os outros meios alternativos - como os transportes públicos  -, foram relativizados pela sociedade, configurando adversidades em diversas faces - ora em um viés ambiental, por acentuar a emissão de gases estufa; ora em âmbito espacial, por dificultar o fluxo urbano nas cidades.

Ademais, é preciso pontuar a forma como essa questão da sociedade pode ser refletida em gerações futuras. Conforme defendeu o sociólogo Pierre Bourdieu, os indivíduos possuem a tendência de incorporar padrões sociais ao longo do tempo. Ao seguir essa linha de pensamento, é factível afirmar que a prioridade pelo uso de carros será naturalizada pelos jovens, perpetuando as problemáticas ambientais de poluição do ar, assim como a saturação do espaço urbano de automóveis. Dessa forma, pode-se asseverar que a falta de cooperativismo social no que tange à opção por outras formas de locomoção configura uma cadeia de complicações não só no contexto atual, mas também nas sociedades posteriores.

Tornam-se prementes, portanto, intervenções para reverter esse quadro no território nacional. Para tal fim, as prefeituras municipais devem destinar verbas, arrecadadas de impostos progressivos, para melhorias nos ônibus públicos, aumentando-os quantitativamente, reformando-os em nível infraestrutural - como os existentes em Cingapura - e reformulando rotas mais estratégicas , para aguçar maior interesse da população por esse modal. Outrossim, as unidades de ensino devem adotar o modelo de “escola cidadã” - proposta por Paulo Freire, abrindo debates nas aulas de Sociologia e realizando palestras sobre os desdobramentos do excesso de carros no espaço urbano, para formar mentalidades mais prudentes e desconstruir tal herança histórica nas próximas gerações.