Os desafios da mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 27/10/2017
No século passado, Henry Ford inovou com sua linha de montagem de carros a fim de torná-los acessíveis a baixo custo. Hodiernamente, graças ao fomento à indústria automobilística e ao aumento do poder de compra da população, a frota de veículos cresce demasiadamente causando problemas de mobilidade nas cidades brasileiras. Nesse sentido, ações conjuntas do Estado e da sociedade se fazem necessárias para mitigar essa problemática.
A princípio, percebe-se que o individualismo inerente à sociedade moderna corrobora o problema do deslocamento no espaço urbano. A esse respeito, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman destaca o conceito de “modernidade líquida”, marcada pela fluidez e predominância do individualismo e das escassas relações coletivas. Sob essa ótica, é notório que a posse e o uso de veículos atuam como significativos de status e independência pessoais e a prevalência de uma consciência coletiva de bem comum, que leve em consideração as consequências a curto e longo prazo de tais hábitos, é quase inexistente. Dessa forma, é preciso que os próprios indivíduos se atentem a alternativas que mitiguem esses transtornos urbanos em que aqueles são os principais afetados.
Outrossim, cabe destacar também a deficiente infraestrutura dos transportes públicos nas cidades brasileiras, que contribui para a opção pelos veículos individuais. Segundo pesquisa do IBOPE, Instituto Brasileiro de Opinião e Estatística, 83% dos entrevistados optariam pelo transporte coletivo se esse fosse de boa qualidade. No entanto, o que prevalece na atualidade são ônibus e trens lotados e sem o mínimo de segurança, com casos frequentes de arrastões e assédios, desestimulando ainda mais o uso desses modais. Isso mostra o quanto a área de mobilidade carece de investimentos, o que acarretaria benefícios aos indivíduos, ao Estado e até mesmo ao meio ambiente.
Infere-se, portanto, que medidas são necessárias para solucionar esse impasse urbano. Para isso, o Ministério do Transporte deve criar parcerias público-privadas com desenvolvedores de aplicativos para Caronas Solidárias, que integrem pessoas de localidades próximas dispostas a colaborar, e estimular, por meio da mídia televisiva, a adesão popular a esse serviço, de forma a fomentar na sociedade o espírito de cooperação para a vida em comunidade nas grandes cidades. Sendo assim, cabe, ainda, à sociedade civil organizada aderir a tais práticas. Ademais, o Governo Federal deve destinar parcela significativamente maior das arrecadações para expansão de medidas como as faixas exclusivas para ônibus e para o aumento na frota de veículos de transportes em massa, visando oferecer condições adequadas que possibilitem a mudança de hábitos de deslocamento. Assim, a mobilidade brasileira também poderá refletir a fluidez da modernidade de Bauman.