Os desafios da mobilidade urbana no Brasil

Enviada em 13/08/2021

Para Platão, filósofo grego da Antiguidade, a qualidade de vida ultrapassa a própria existência, pois, para ele, o importante não é viver, mas viver bem. Sob tal ótica, os desafios da mobilidade urbana, sobretudo no Brasil atual, representam um obstáculo ao estabelecimento desse ideal de vida para os brasileiros, o que configura um grave problema social. Isso se explica não só pela problemática infraestrutura de transportes, mas também pelo elevado número de carros comercializados no país.

A princípio, é imperioso destacar que o tema em questão é fruto das condições precárias em que se encontra a infraestrutura de transportes brasileira. Nesse contexto, torna-se essencial ressaltar que a causa principal desse cenário é a falta de investimento governamental no setor. Segundo dados colhidos pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, o Brasil apresenta o menor investimento público em infraestrutura entre 21 países da América do Sul e do Caribe. Em virtude disso, sem a verba necessária para manter a logística de transportes, ônibus e metrôs não operam adequadamente, as rodovias permanecem desgastadas com inúmeros buracos que dificultam o deslocamento por elas e a mobilidade urbana é comprometida. Logo, esse quadro de inoperância das esferas de poder exemplifica na prática a existência das “instituições zumbis” descritas por Zygmunt Bauman.

Ademais, a discussão em curso deriva ainda da alta comercialização de automóveis no país. De acordo com o escritor George Orwell, a mídia é responsável por controlar a massa popular. Nesse viés, percebe-se a influência da mídia na mobilidade urbana à medida que, por meio da divulgação em peso de propagandas apelativas de empresas automobilísticas, fomenta o consumo de carros na população. Consequentemente, há grande redução da adoção de meios de transporte alternativos, como bicicletas, e aumento da quantidade de veículos nas rodovias, o que contribui para o inchaço das ruas, provoca mais acidentes de trânsito e, inevitavelmente, prejudica o deslocamento nas cidades.

Portanto, de modo a garantir plena mobilidade urbana no Brasil, medidas exequíveis devem ser tomadas por órgãos de autoridade. A princípio, compete ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, em parceria com o Ministério da Economia, destinar mais verba para a manutenção da infraestrutura de transportes. Isso deve ser feito por meio de um plano econômico que contemple o investimento na recuperação de rodovias desgastadas e na manutenção do transporte público – o qual deve conter a compra de novos ônibus e estruturação de metrôs – a fim de que a população possa se deslocar pela cidade com mais facilidade. Além disso, cabe às grandes detentoras dos meios de comunicação limitar o incentivo à compra de carros e, em contrapartida, estimular o uso de meios de transporte alternativos. Com isso, certamente o brasileiro estará mais perto do ideal platônico.