Os desafios da mobilidade urbana no Brasil

Enviada em 16/10/2019

Em 1988, Ulysses Guimarães promulgou a Carta Magna brasileira e determinou, no artigo 6°, que o direito ao transporte deveria ser garantido a todos. Entretanto, percebe-se que tal premissa, elaborada por Guimarães, não se aplica de maneira democrática e benéfica à sociedade como um todo, em razão do crescente problema de deslocamento urbano. Logo, percebe-se que desconstruir o modelo de rodovias e a cultura de culto ao carro é fundamental para solucionar o impasse.

Sob uma primeira análise, destaca-se que o modelo rodoviário é um dos maiores impulsionadores para o crescente problema. A respeito disso, em 1956, o então Presidente Juscelino Kubitschek promoveu um grande investimento no modelo rodoviarista e, assim, motivou a população a adquirir veículos, sem os quais seria impossível o deslocamento nas cidades. Ocorre que tal modelo proposto por JK promoveu – e promove – uma sociedade ainda mais estratificada, visto que a possibilidade de possuir carro é distante a determinados grupos sociais marginalizados economicamente. Dessa forma, é incoerente que, mesmo em um Estado Democrático de Direito, o poder público persista em investir no modelo de locomoção excludente.

De outra parte, ressalta-se que o culto ao carro se mostra desafio à gestão da mobilidade urbana. Nesse viés, o filósofo Theodor Adorno desenvolveu o conceito de Indústria Cultural, segundo o qual a mídia possui um grande papel de manipulação aos indivíduos, a partir de conteúdos de maneiras constantes e persuasivas. Por essa perspectiva, observa-se que a grande preferência das pessoas por automóveis é resultado da exorbitante influencia que o meio midiático, como acreditava Adorno, promove de forma imprópria e egoísta, acarretando pessoas, a cada dia, mais vulneráveis ao consumismo. Logo, enquanto a supervalorização automobilística for a regra, os cidadãos serão obrigados a conviverem com um dos maiores desafios do meio urbano: o trânsito caótico.

Desse modo, a fim de que a exorbitante problemática de deslocamento seja mitigada e uma sociedade democrática seja realmente estabelecida, urge que os cidadãos estimulem suas mentalidades críticas a respeito da realidade do país, por meio do maior vínculo comunicativo do século XXI: internet e mídias sociais; para isso, devem promover discussões capazes de criticarem o modelo rodoviarista e sugerir, portanto, que as autoridades desenvolvam, mais ainda, a forma ferroviária, como trens e metrôs. Tamanha iniciativa, que englobará várias esferas sociais, terá como finalidade diminuir a crise de mobilidade que o Brasil presencia e desestimular a grande valorização do carro, com o auxílio benéfico da mídia. Sendo assim, a promessa estabelecida por Guimarães deixará de ser apenas teoria.